Saudações:

Em homenagem e reverência profunda à minha Mestra de Ordenação e Treinamento, Venerável Shingetsu Coen Osho.
Que seu Corpo-Dharma, seja como um diamante inquebrantável.
Que tenha próspera longevidade e saúde ilimitada.
Que nenhum mal a atinja.
Que todos os seus esforços sejam recompensados.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

VISITA DE SUA SANTIDADE O DALAI LAMA AO BRASIL EM SUA QUARTA VISITA.

O que o Sr. sentiu ao ser reconhecido como o Dalai Lama? O que achou que tinha acontecido com o Sr.?
Sua Santidade o XIV Dalai Lama - Fiquei imensamente feliz. Gostei muito. Mesmo antes de ser reconhecido, dizia à minha mãe que um dia eu iria à Lhasa.  Eu ficava “montando” o parapeito de uma janela imaginando que era um cavalo e que eu estava cavalgando rumo à Lhasa. Eu era bem pequeno nessa época, mas me lembro muito bem disto. Tinha muita vontade de conhecer a capital.
Outra coisa que não mencionei em minha autobiografia é que, logo após o meu nascimento, um casal de corvos fez um ninho no telhado de casa. Todas as manhãs, eles chegavam, permaneciam por um tempo e iam embora. Foi um fato significativo e eventos similares aconteceram no nascimento do I, VII, VIII e XII Dalai Lama. Após o nascimento deles, um casal de corvos vinha e ficava por um tempo. No meu caso, no início, ninguém deu importância ao fato. Recentemente, há uns três anos, estava conversando com minha mãe e ela lembrou deste episódio. Ela observou que os corvos chegavam na parte da manhã e iam embora após um tempo. O mesmo acontecia na manhã seguinte e assim por diante.
Na noite após o nascimento do I Dalai Lama, ladrões entraram na casa da família. Os pais da criança fugiram e a deixaram para trás. No dia seguinte, voltaram ansiosos para saber o que tinha ocorrido com o filho e o encontram num canto da casa e ao lado havia um corvo vigiando e protegendo a criança. Mais tarde, quando o I Dalai Lama cresceu e desenvolveu sua prática espiritual, durante uma meditação ele teve contato direto com uma divindade protetora, Mahakala, que lhe disse: “Alguém como você, que defende os ensinamentos budistas, precisa de um protetor como eu. No dia do seu nascimento, eu o ajudei”. Como podemos ver, é óbvio que existe uma ligação entre o Mahakala, os corvos e o nascimento dos Dalai Lamas.
Outra coisa que aconteceu e que minha mãe se lembra muito bem é que logo após eu ter chegado à Lhasa, eu disse que meus dentes estavam guardados numa caixa no Palácio de Norbulinka. Quando abriram a caixa, encontraram um par de dentaduras que havia pertencido ao XIII Dalai Lama. Apontei para a caixa e disse que meus dentes estavam lá dentro, mas não me lembro deste episódio. As memórias recentes associadas a este corpo físico são mais fortes. O passado se tornou pequeno, mais vago. A menos que eu me esforçasse muito para lembrar dessas coisas do passado, mas não me recordo.

sábado, 17 de setembro de 2011

O Fio da Lâmina


Todos nós, seres humanos, acreditamos que existe algo a ser realizado, alguma coisa a ser entendida, algum mistério a ser resolvido, algum lugar aonde ir.
Essa é a dificuldade, não tem nada disso, só tem a vida para ser vivida.
Viver é muito simples.
A qualquer momento determinado do tempo estamos ouvindo, vendo, cheirando, tocando, provando, pensando.
Em outros termos, o tempo todo há inputs sensoriais dos mais diversos, ao tentar adaptar a vida a nossas idiosincrasias é que surgem os problemas.
Quando estamos mergulhados na vida há simplesmente o ver, o ouvir, o cheirar, o tocar, o pensar, o estar presente.
Quando vivemos dessa maneira, "no problems".
Somos apenas isso. 
Há vida e estamos mergulhados nela. Não estamos separados. Somos apenas o que a vida é. Ouvimos, pensamos, vemos, cheiramos, e assim por diante.
Não há o que questionar porque, quando somos a própria vida, não temos indagações a respeito, não existem dúvidas.
No entanto, não é assim que nossas vidas são e, por isso, temos tantas perguntas.
Quando não estamos vivendo nossos equívocos, nossos infernos pessoais, a vida é uma totalidade sem fronteiras, na qual estamos tão imersos que tudo é maravilhoso, tudo é tão intenso.
Mas nem sempre nos sentimos imersos porque, embora a vida seja apenas vida, quando acontece algo de que não queremos, ou quando alguém nos faz alguma coisa de que não gostamos etc., (existem milhões de coisas que podem aborrecer um ser humano) nos sentimos mal.
Todos, sem exceção, baseiam-se no fato de que, repentinamente, a vida não é mais só a vida (ver, ouvir, tocar, cheirar, pensar).
Assm fazendo, separamo-nos e rompemos a totalidade porque nos sentimos ameaçados. 
Pronto! A vida está do lado de lá e eu estou aqui, pensando sobre ela. Não estou imerso em nada mais.
O acontecimento doloroso ou irritante ocorreu do lado de lá e quero pensar a respeito dele do lado de cá, para conseguir criar uma forma de escapar ao sofrimento que estou sentindo.
Dividimos a vida em dois lados: o lado de cá e o lado de lá.
É mais ou menos como “ser expulso do Jardim do Éden”.
O Jardim do Éden é uma vida de simplicidade intacta, é estar dentro da vida.
Todos nós deparamos com essa vida de vez em quando.
As vezes, depois de uma sessão de zazen, depois de um sesshin, depois de assistirmos um bom filme, de estarmos com bons amigos tomando um vinho, essa simplicidade é muito óbvia e, por um certo tempo, sabemos que a vida não é uma maravilha.
Mas, na maior parte do tempo, temos a ilusão de que a vida do lado de lá está nos oferecendo um problema do lado de cá.
Qualquer alteração daquilo que vc considera ser o certo, qualquer quebra do equilíbrio e, já era...
A unidade sem fronteiras é rompida (ou assim parece).
Imediamente pensamos, como é que eu resolvo isso para me sentir melhor?
Parece que estamos rodeados por pessoas e acontecimentos que precisamos controlar e acertar, por nos sentirmos separados.
Quando começamos a analisar a vida, a nos preocupar e nos atormentar com ela, inventamos as mais variadas soluções artificiais, quando o cerne da questão é que, desde o mais remoto princípio, não há nada que necessite ser resolvido.
Não conseguimos enxergar essa unidade perfeita porque nossa distância da vida a oculta de nós.
Nossas vidas são perfeitas, mas ninguém acredita nisso!
Assim, existe a vida na qual estamos verdadeiramente imersos (uma vez que tudo que somos é pensar, ver ouvir, cheirar, tocar) e à qual acrescentamos pensamentos, referentes a nós, do tipo “mas isso não me convém”, "Não gosto dessa maneira".
É fácil perceber o quanto uma pessoa está fora de sintonia com a vida. Essa pessoa detesta tudo, tem sempre alguma coisa que a aborrece. Barulhos a irritam, cheiros a irritam, ter que esperar no transito a aborrece mais ainda, gente diferente a chateia etc.
Essa pessoa perdeu a consciência de sua unidade com a vida. Passou a fazer inúmeros acréscimos ao simples ato de viver e, ao fazê-lo, começaram os problemas, as ansiedades, as tensões, a raiva, a ganância, a intolerância o preconceito etc. etc.
Quanto mais se afasta da vida, mais acréscimos faz, mas qualifica a vida em bom ou mal, em eu gosto ou eu não gosto etc.
Voltar a unir essas divisões aparentemente distintas da vida é o que o zen chama de “caminhar pelo fio da lâmina”.  
Temos sempre a ilusão de estarmos separados, ilusão que nós mesmos criamos. Quando estamos ameaçados ou quando a vida não nos convém, começamos a nos preocupar, a pensar sobre uma possível solução.
Não gostamos de estar com a vida como ela é, porque isso inclui sofrimento, o que para nós é inaceitável.
Seja uma enfermidade grave, ou uma crítica efetuada, seja sentir-se só, desapontado, desamparado, isso tudo é inaceitável para nós.
Não aceitamos esse estado de coisas, queremos consertar o problema, resolvê-lo, livrarmo-nos dele. É justamente nesse momento que devemos colocar em prática o “Caminhar sobre o fio da lâmina”
Primeiro precisamos perceber que estamos com raiva, depressivos ou qualquer outro estado alterado de consciência.
Muitas pessoas sequer percebem que é isso que está acontecendo.
Assim, o primeiro passo é tomar consciência de que existe a sensação de aborrecimento de raiva etc. O zazen é prioritário para essa percepção.
Esse é o primeiro passo, mas ainda não é o fio da lâmina, ainda estamos separados, mas agora já sabemos disso.
Integrar os aspectos separados de nossas vidas é andar sobre o fio da lâmina.
Precisamos ser o que basicamente nós somos, ou seja, ver, tocar, ouvir, cheirar; temos de experimentar tudo que nossa vida é neste segundo, nesse exato momento. 
Se estamos tomando um café, temos que ser o experimentar o café. Se estamos aborrecidos, temos de vivenciar esse aborrecimento. Se estamos com medo, vivenciar o estar com medo. Esse vivenciar é físico; não tem nada que ver com os pensamentos que giram na cabeça a respeito de estarmos aborrecidos.
Quando estamos numa experiência não-verbal, estamos andando no fio da lâmina: somos o momento presente. Ao andarmos pelo fio da lâmina, os estados agonizantes da separação são integrados e vivenciamos a vida.
Compreender o fio da lâmina é o que constitui a prática zen.
A razão, pela qual é difícil, é que não queremos nos unir com a vida, queremos interpretá-la a nosso bem prazer.
Com o zazen percebemos isso.
Então nasce uma pequena vontade de ser completo, de ser feliz, de ser alegre.
Com a continuidade da prática, vamos aumentando a percepção da separação e, a vontade de ser completo vai aumentando, se intensificando.
Se alguma coisa está dando errado (nada está errado, mas achamos que está), se alguém me mágoa, se estou com raiva. Quero ficar mergulhado em meus pensamentos a respeito dessa mágoa, dessa raiva.
Assim fazendo, só aumentamos a separação.
Quando me permito consumir por esses pensamentos todos cheios de razões. Nunca estamos errados, os outros sim...
Quanto mais sofisticada se torna a minha prática de zazen, mais rápido eu vejo essa armadilha e mais rápido retorno à experiência da dor, ao fio da lâmina.
Se antes eu ficava aborrecido com alguma coisa por muito tempo, (meu pai ficou brigado com a irmã dele por mais de 20 anos e faleceram sem fazer as pazes, pois cada um achava que estava certo e o outro errado). Com a prática do zazen, esse tempo vai diminuindo lentamente, até cessar por completo.
Se antes qualquer aborrecimento irritava por meses, vai diminuindo para semanas, depois dias, depois minutos. Até que percebemos que as coisas são o que são:
Chove, faz frio, venta, os juros do cartão são altíssimos, o carro quebra e custa caro consertar, para poder ter o dinheiro para consertar o carro, tem que se entrar em “modo de economia de guerra”, estamos envelhecendo, ficamos doentes etc. etc.
Não há nada de errado com nada disso, assim é a vida – perfeita e maravilhosa.
Errada é nossa percepção dela, errado é querer que a vida se molde ao que entendemos ser o certo e o errado.
Vamos combinar, que a vida está se lixando para o que nos achamos.
Ela é o que é...
É bonita, é bonita e, é bonita.

Adaptação livre do texto de Charlotte Joko Beck

Monge Taigen.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Mahakashyapa – O Primeiro Sucessor de Shakyamuni Budha

Durante uma conferência, diante de uma assembléia de oito mil pessoas na Montanha Espiritual (Ghridakuta, o Pico dos Abutres), o Buddha Shakyamuni tomou de uma flor e fê-la girar delicadamente entre os dedos. Os discípulos presentes não conseguiram compreender aquele gesto. Apenas Mahakashyapa sorriu... Disse-lhe, então, o Buddha: Apenas tu compreendeste o segredo da Mente do Nirvana, o ensinamento que é transmitido de coração para coração e de mente para mente, o meu maravilhoso espírito; ei-lo, é teu. É o Samadhi do Espírito de Buddha. O verdadeiro Olho do Dharma.
Mahakashyapa nasceu em uma rica família brâmane da tribo Kashyapa na vila de Mahatita no antigo reino Hindu de Magadha (moderna Bihar do sul) Ele originalmente chamava-se Pipala, porque era dito que havia nascido quando sua mãe descansava sob uma árvore Pipal (Bodhi Fichus Religiosus - árvore Bodhi, espécie de árvore onde Budha atingiu a iluminação). Em sânscrito, Kashyapa significa "Bebedor de Luz", dizem que quando nasceu, uma luz dourada preencheu a sala e então foi para a sua boca. Por isso ele foi chamado Kashyapa, Bebedor de Luz. Seu semblante era dourado e ele possuía trinta das trinta e duas marcas dos Bodhisatvas.
Inteligente por natureza, com oito anos já havia aprendido os preceitos brâmanes e demonstrado talento em todas as áreas do aprendizado e da arte. Ao crescer, no entanto, começou a desgostar do redemoinho de desejos que invariavelmente acompanham todos os prazeres e vicissitudes da vida, então, sentiu vontade de ir contra o modo de vida atual e seguir vida religiosa.
Oposto a essa idéia, seus pais ansiavam vê-lo casado para prosseguir a linhagem familiar. Para deixá-los tranqüilos, ainda que contra a sua vontade, casou-se. Aconteceu, no entanto, que sua esposa também mantinha os mesmos anseios de dedicar-se à vida religiosa e manter-se pura fisicamente, deste modo, mesmo casados, fizeram votos de viver uma vida sem contato físico.
Um certo dia quando contava com 12 anos, depois da morte de seus pais. Pipala observou um grande número de vermes entre os feijões que se encontravam espalhados para secagem e ficou bastante deprimido em saber das pequenas vidas que ele tinha ignorado durante tanto tempo. Naquele momento decidiu procurar um Mestre religioso e, entrar de vez na vida religiosa. Conversou longamente com sua esposa que o incentivou a seguir em frente, contanto que quando ele conseguisse encontrar um Mestre a informasse. Dizem que no mesmo momento em que Pipala tomou essa decisão Shakyamuni alcançava a iluminação sentado sob a árvore Bodhi.
Como era membro da tribo Kashyapa. Pipala ficou conhecido como o Grande Kashyapa ou Mahakashyapa. Mahakashyapa encontrou o Buddha em um santuário conhecido como o “Santuário das Muitas Crianças”. Deslumbrado pela visível nobreza de Shakyamuni, Mahakashyapa prostou-se e, anunciando que se encontrava procurando um mestre para lhe ensinar os caminhos da verdade, pediu para ser aceito como discípulo.
Percebendo a total honestidade de Mahakashyapa, bem como a sua firmeza de propósitos, Shakyamuni Buddha disse: "Seja bem-vindo, Mahakashyapa”. Buddha transmitiu a ele o verdadeiro tesouro do olho do Dharma. E em oito dias de treinamentos intensivos, Mahakasyapa atingiu a iluminação. Sua esposa também tornou-se, posteriormente, uma monja e depois de passar algum tempo treinando com a comunidade de discípulos de Budha, atingiu a iluminação.
A partir do momento da sua decisão de seguir vida religiosa, Mahakashyapa praticou incessante e rigidamente. Durante toda sua vida, o ancestral Mahakashyapa, herdeiro do Dharma de Shakyamuni, realizou dez tipos de prática incessante. Foram elas as seguintes:
1- Jamais aceitava qualquer convite que lhe fizessem para comer, mendigava sua comida todo dia e jamais em qualquer hipótese aceitava dinheiro.
2- Sempre morava nas florestas ou em cemitérios, jamais nos templos, cidades, povoados ou casas particulares.
3- Nunca procurou ter mais de uma roupa para vestir e não aceitava, quando tentavam lhe oferecer roupas limpas e novas de presente.
4- Dormia sempre nos campos debaixo de uma árvore qualquer.
5- Comia sempre o que conseguia através da mendicância e, somente uma vez ao dia.
6- Jamais se deitava para descansar. Dormia fazendo zazen ou andava para ficar desperto.
7- Nunca sentava para o zazen em uma almofada.
8- Vivia sempre só. Jamais queria estar perto de quem quer que fosse ou dormir junto a alguém.
9- Comia sempre em primeiro lugar frutas e legumes silvestres, e somente depois disto se permitia comer a comida conseguida.
10- Nunca comeu carne, manteiga nem usou óleo ou tempero de qualquer espécie.
Estas foram as dez ações que este ancestral realizou por sua vida afora. Mesmo depois de ter ganho o Verdadeiro Tesouro do Olho do Dharma, continuou a viver deste modo até sua morte.
Até mesmo Shakyamuni, preocupado com sua maneira rígida de viver lhe fez a seguinte observação: "Eis que estás envelhecendo. Come a comida costumeira dos monges da sangha!" O venerável Mahakashyapa retrucou, com seu costumeiro destemor: "Se eu não tivesse me encontrado contigo, o Tathagata, teria sido para sempre apenas mais um asceta auto-centrado, e eu teria gasto inutilmente toda minha vida perambulando por vários caminhos. Felizmente eu me encontrei contigo, e com isto ganhei o Dharma. Não estou à altura de receber a comida comum dos monges." Shakyamuni elogiou altamente esta sua resposta e sua determinada resolução.
que Mahakashyapa insistia em manter tais práticas de vida duríssimas, acabou ficando muito magro e esquelético. Com isto os demais monges começaram a despreza-lo. Observando isto o Tathagata chamou Mahakashyapa e o fez sentar-se ao seu lado na plataforma de palestras.
Mahakashyapa foi um autêntico praticante dentro da sangha de Shakyamuni. As palavras nos faltam se tentarmos sequer começar a descrever o que era a prática incessante de toda sua vida.
Ele foi o mais sério nas práticas budistas dentre os discípulos. Abandonou todo o interesse pela comida, roupa, habitação e viveu até sua morte uma vida simples, apenas com o mínimo para o seu sustento.
Na comunidade, os outros monges vendo apenas a feia magreza de seu corpo e a pobreza de sua roupa, tinham dúvidas sobre a sabedoria de Kashyapa. Por causa disso, toda vez que o Buddha ia dar um ensinamento em algum lugar, ele compartilhava seu assento com Kashyapa, que a partir de então passou a ser o líder da comunidade.
Conta-se um história sobre Mahakashyapa:
“Entrando em uma vila para esmolar, eu me aproximei de um homem muito doente que estendeu uma mão leprosa e apodrecida contendo uma pequena quantidade de arroz podre. Quando o homem jogou o arroz na minha tigela, um de seus dedos apodrecidos caiu junto. Sentei-me ao lado de uma cerca e comi tudo o que estava na tigela. Estava pleno de felicidade e sentimento de gratidão.”
Mahakashyapa, sempre ignorava a s doações dos ricos, preferia sempre esmolar com os pobres. As poucas ofertas dos carentes o alegravam, pois, recebendo-as ele dava oportunidade para que eles melhorassem seus Karmas futuros.
Quando Mahakashyapa envelheceu. Budha começou a se preocupar com a sua condição física. Roupas feitas de trapos costurados eram pesadas e incômodas. O Budha lhe disse, “Você esta muito idoso. Porque não veste roupas mais leves e limpas? E, ao invés de sair todos os dias para esmolar, não aceita o convite dos crentes para as refeições. É muito frio na floresta. Porque não vem e vive comigo no Templo?”
Ainda que grato por essas bondosas palavras de preocupação Kahakashyapa replicou, “ O modo de vida ascético me faz feliz mais do que qualquer outra coisa. Ao continuar praticando assim, deixo um bom exemplo e encorajo as novas gerações para que não esmoreçam.”
O Budha apreciou grandemente essa atitude e, zelando por ele, permitiu que continuasse vivendo do jeito que queria e gostava.
Sua profunda sinceridade foi reconhecida de tal modo, que nos seus últimos anos, ele foi o principal ajudante de Budha na conversão de novos discípulos. Quando Mahakashyapa soube da morte do Budha, ficou tão entristecido que desmaiou.
Ainda se recuperando de sua tristeza, tomou a importante decisão de compilar e arrumar os ensinamentos de Budha para que pudessem ser corretamente transmitidos a posteridade. Em pouco tempo reuniu toda a comunidade de monges no que veio a ser chamado de “O Primeiro Concílio”. Entre os monges presentes estava Ananda que estando constantemente ao lado de Budha e, sendo possuidor de uma prodigiosa memória, havia ouvido o maior número de ensinamentos, sendo um dos maiores responsáveis pela clareza da compilação.
Mahakashyapa permaneceu como líder da comunidade durante 20 anos. Após todos esses anos, percebendo que o tempo de sua morte estava próximo, passou o seu legado para o monge Ananda, subiu ao monte Kukkutapada-giri. Forrou o chão com algumas folhas, sentou-se em zazen, com o Manto (Okesa) e a Tigela (Oryoki) de Shakyamuni ao seu lado. Juntou suas palmas em atitude reverente e rezando pela paz de todos os seres, entrou em um estado de profunda absorção meditativa e, calma e serenamente deu seu último suspiro.
É dito que no momento de sua morte na natureza ouviu-se um grande estrondo. Mahakasyapa agora era um com o “Todo”.
Mahakashyapa é reverenciado como a força motriz que possibilitou a tarefa de compilação de todos os ensinamentos de Shakyamuni Budha. O Dharma de Budha certamente não teria sobrevivido sem ele.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Monge Taigen

Ultimo capitulo do livro Siddharta de Herman Hesse

GOVINDA

(Extraído do livro Sidarta, de Hermann Hesse)

CERTA feita, Govinda repousava em companhia de outros monges naquele parque que a cortesã Kamala dera de presente aos discípulos de Gotama. Foi lá que ouviu falar de um balseiro idoso, que morava junto ao rio, a uma jornada de distância e ao qual o povo considerava um sábio.
Prosseguindo no seu caminho, Govinda escolheu a estrada que o conduzisse até à balsa. Estava curioso de conhecer esse velho. Pois, muito embora tivesse passado toda a sua vida em obediência aos regulamentos e os monges mais jovens lhe tributassem o respeito que mereciam a sua idade e a sua modéstia, jamais se tinham extinguido na sua alma a inquietação e o afã da pesquisa.

Chegado ao rio, pediu ao ancião que o levasse ao outro lado. Ao desembarcarem, disse-lhe:
- Sempre te mostras muito gentil para com os monges e os peregrinos. Já transportaste através do rio grande número dos nossos. Mas dize-me, ó balseiro, não serás também tu daqueles que procuram o caminho certo?

Respondeu Sidarta, com um sorriso a iluminar-lhe os olhos cansados:
- Mas como, ó venerável? Ainda andas em busca do caminho? Ora, estás de idade provecta e usas os trajes dos discípulos de Gotama.
- É verdade que sou velho - admitiu Govinda. – Mas nunca cessei de pesquisar. Parece que será meu destino jamais abandonar a busca. Tenho a impressão de que também tu procuraste a senda. Não me queres revelar algo a esse respeito, meu prezado amigo?

Ao que replicou Sidarta:
- Que poderia eu dizer-te, ó reverendo? Só, talvez, que procuras demais, que de tanta busca não tens tempo para encontrar coisa alguma.
- Por quê? - perguntou Govinda.
- Quando alguém procura muito - explicou Sidarta - pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz. de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente.
Procurar significa: ter uma meta. Mas achar significa: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó venerável, sejas realmente um buscador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos.

- Ainda não te compreendo inteiramente - insistiu Govinda. - Que queres dizer com isso?
E Sidarta respondeu:
- Em outra época, ó venerável, há muitos anos, já estiveste aqui, à beira deste rio. Junto à riba, viste um homem que dormia. Sentaste-te a seu lado, a fim de velares pelo seu sono. E todavia, ó Govinda, não reconheces aquele homem.
Pasmo, como que enfeitiçado, o monge fitou o rosto do balseiro.
- Serás mesmo Sidarta? - perguntou em voz balbuciante. - Também desta vez não te teria reconhecido. Saúdo-te de todo coração, ó Sidarta. Sinto-me realmente feliz por ver-te mais uma vez! Mudaste bastante, meu amigo... Pois então, ficaste balseiro?

Sidarta riu-se jovialmente.
- Sim, sou balseiro. Há pessoas, ó Govinda, que necessitam transformar-se freqüentemente e usar fantasias de toda espécie. Sou uma dessas pessoas. Sê bem-vindo, meu caro. Passa a noite na minha cabana!
Govinda pernoitou na casinha de Sidarta. Dormiu no leito outrora ocupado por Vasudeva. Dirigiu inúmeras perguntas ao amigo de infância. Sidarta teve de contar-lhe muita coisa da sua vida.
Quando, na manhã seguinte chegou a hora de continuar a romaria, Govinda disse, depois de alguma hesitação:
- Antes de eu prosseguir na minha jornada, permite-me mais uma pergunta, ó Sidarta: tens alguma doutrina? Algum credo? Algum conhecimento que te oriente e te ajude a viver, praticando o Bem?
- Ora, meu caro amigo, - tornou Sidarta - tu sabes muito bem que já na minha mocidade, naqueles dias que passamos na floresta, em companhia dos ascetas, cheguei a desconfiar de doutrinas e de professores, a tal ponto que lhes virei as costas. E assim me conservei.
Desde então, porém, tive numerosos mestres. Uma formosa cortesã serviu-me de instrutora durante longos anos. Um comerciante abastado ministrou-me ensinamentos. Alguns jogadores de dados deram-me aulas.
Certa feita, um peregrino, discípulo do Buda, foi meu mestre, quando permaneceu sentado perto de mim, enquanto eu dormia na selva, por ocasião de uma romaria. Também a ele devo certas noções e lhe fico grato por isso, muito grato.
Mas a maior parte do que aprendi veio-me do rio e de meu predecessor, o balseiro Vasudeva. Foi um homem simples, esse Vasudeva. Nenhum filósofo. Mas sabia o necessário, tão bem quanto Gotama. Reputo-o, um ser perfeito, um santo.

- Parece-me - disse Govinda - que ainda gostas de uma pontada de ironia, amigo Sidarta. Acredito no que dizes. Sei que não seguiste nenhum mestre. Mas, supondo que não tenhas descoberto doutrina alguma pelo teu próprio esforço, não achaste pelo menos certas idéias e percepções que sejam tuas e te fácilitem a existência? Se me comunicasses algo a respeito delas, alegrarias o meu coração.
- Nada verdade me vieram algumas idéias - respondeu Sidarta - e de quando em quando tive percepções. Ocorreu-me às vezes sentir, por uma hora e mesmo durante um dia inteiro, a presença do saber no meu íntimo, assim como sentimos o pulso da vida no nosso coração. Certamente refleti sobre muita coisa, mas seria difícil para mim transmitir-te os meus pensamentos.
Olha, meu querido Govinda, entre as idéias que se me descortinaram encontra-se esta: a sabedoria não pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará a tolice.
- Estás brincando? - perguntou Govinda.
- Não, brinco, não. Digo apenas o que percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la.
Esse fato, já o vislumbrei às vezes na minha juventude. Foi ele que me afastou dos meus mestres. Uma percepção me veio, ó Govinda, que talvez se te afigure novamente como uma brincadeira ou uma bobagem. Reza ela: "O oposto de cada verdade é igualmente verdade."
Isso significa: uma verdade só poderá ser comunicada e formulada por meio de palavras, quando for unilateral. Ora, unilateral é tudo quanto possamos apanhar pelo pensamento e exprimir pela palavra. Tudo aquilo é apenas um lado das coisas, não passa de parte, carece de totalidade, está incompleto, não tem unidade.
Sempre que o augusto Gotama nas suas aulas nos falava do mundo, era preciso que o subdividisse em Sansara e Nirvana, em ilusão e verdade, em sofrimento e redenção. Não se pode proceder de outra forma. Não há outro caminho para quem quiser ensinar.
Mas o próprio mundo, o ser que nos rodeia e existe no nosso íntimo, não é nunca unilateral. Nenhuma criatura humana, nenhuma ação é inteiramente Sansara nem inteiramente Nirvana.
Homem algum é totalmente santo ou totalmente pecador. Uma vez que facilmente nos equivocamos, temos a impressão de que o tempo seja algo real. Não, Govinda, o tempo não é real, como verifiquei em muitas ocasiões.
E se o tempo não é real, não passa tampouco de ilusão aquele lapso que nos parece estender-se entre o mundo e a eternidade, entre o tormento e a bem-aventurança, entre o Bem e o Mal.
- Mas como? - perguntou Govinda, angustiado.
- Presta atenção, meu querido, muita atenção! O pecador que eu sou, e que tu és, é pecador, mas um dia voltará a ser Brama. Em determinado momento alcançará o Nirvana e será o Buda. Mas, olha bem: esse "um dia" é apenas uma ilusão, um termo convencional.
O pecador não se encontra a caminho do estado de Buda; não está em plena evolução, muito embora o nosso cérebro seja incapaz de imaginar as coisas de outro modo. Pelo contrário, no pecador já se acha contido, hoje, agora mesmo, o futuro Buda.
Todo o seu porvir já está presente. Tu deves respeitar na pessoa desse pecador, na tua própria pessoa, na de qualquer homem, o Buda em botão, o Buda possível, o Buda oculto.
O mundo, amigo Govinda, não é imperfeito e não se encaminha lentamente rumo à perfeição. Não! A cada instante é perfeito. Todo e qualquer pecado já traz em si a graça. Em todas as criancinhas já existe o ancião.
Nos lactentes já se esconde a morte, como em todos os moribundos há vida eterna. A homem algum é dado perceber até que ponto o seu próximo já avançou na senda que lhe coube.
No salteador e no jogador, o Buda espera a sua hora, e no brâmane, o salteador. Na meditação profunda oferece-se-nos a possibilidade de aniquilarmos o tempo, de contemplarmos, simultaneamente, toda a vida passada, presente e futura.
Então tudo fica bem; tudo, perfeito; tudo, Brama. Por isso, o que existe me parece bom. A morte, para mim, é igual à vida; o pecado, igual à santidade; a inteligência, igual à tolice. Tudo deve ser como é.
Unicamente o meu consenso, a minha vontade, a minha compreensão carinhosa são necessários para que todas as coisas sejam boas, a ponto de somente me trazerem vantagens, sem nunca me prejudicarem.
No meu corpo e na minha alma fiz a experiência de quanto carecia do pecado, da volúpia, da cobiça de bens materiais, da vaidade, de quanto precisava até do mais abjeto desespero, para que aprendesse a desistir da minha obstinação, a querer bem ao mundo, a cessar de compará-la a qualquer outro mundo imaginário, que correspondesse aos meus desejos, a algum tipo de perfeição brotado do meu cérebro e para que, deixando-o tal como é, me limitasse a amá-lo e a gostar de fazer parte dele...
Ora, Govinda, esse são alguns dos pensamentos que me vieram.

Baixando-se, Sidarta apanhou uma pedra. Enquanto a sopesava com a mão, disse displicentemente:
- Isto é uma pedra, mas daqui a algum tempo talvez seja terra, e da terra se transformará numa planta, ou num animal, ou ainda num homem. Em outra época, quem sabe, eu teria dito:
"Essa pedra é apenas uma pedra. Não tem nenhum valor. Pertence ao mundo da Maia. Como, no entanto, pode acontecer que, no decorrer do ciclo das metamorfoses, ela se converta num ser humano e adquira espírito, presto certa atenção a ela.
Eis o que, provavelmente, eu teria pensado naqueles tempos. Hoje, porém, raciocino assim: "Esta pedra é pedra, mas é também animal, é também Deus, é Buda. "Não lhe tributo reverência ou amor, porque ela um dia talvez possa se tomar isso ou aquilo, senão porque é tudo isso, desde sempre e sempre.
E precisamente por ser ela uma pedra, por apresentar-se-me como tal, hoje, neste momento, amo-a e percebo o valor, o significado, que existe em qualquer uma das suas veias e cavidades, nos amarelos e nos cinzas da sua coloração, na sua dureza, no som que lhe extraio ao bater nela, na aridez ou na umidade da sua superfície. Há pedras que, ao tato, dão-nos a impressão de tocarmos em sabão ou óleo. Outras são como folhas ou como areia.
Cada qual é diferente e profere o Om à Sua maneira peculiar. Todas elas são Brama, mas, simultânea e especialmente, são pedras, quer possam ser oleosas ou viscosas. Justamente isso me agrada. Parece-me maravilhoso, realmente digno de veneração...
Não me obrigues, porém, a falar mais. As palavras deturpam sempre o sentido arcano. Todas as coisas alteram-se, logo que lhes pronunciamos o nome. Então se tornam levemente falsas e ridículas. "Pois é. Mas, olha, até isso acho bem feito. Aprovo inteiramente e com o maior prazer o fato de que aquilo que para uma pessoa é um tesouro e uma grande sabedoria represente para os demais homens, rematada tolice.

Govinda ouviu-o em silêncio.
Após uma pausa, perguntou timidamente: - Por que me falaste da pedra?
- Foi sem intenção. Ou talvez quisesse dizer que amo de fato a pedra e o rio e todas essas coisas que contemplamos e das quais muito podemos aprender. Sei amar uma pedra, ó Govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca. São coisas, e coisas podem ser amadas.
Mas não posso amar palavras. Por isso não me servem as doutrinas. Não têm nem dureza nem maciez, não têm cores nem arestas, nem cheiro nem sabor. Não têm nada a não ser palavras. Talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras. Pois, Govinda, também a redenção e a virtude, o Sansara e o Nirvana:
são meras palavras. Não existe coisa alguma que seja Nirvana. O que existe é apenas a palavra Nirvana.

Respondeu Govinda:
- Não, não meu amigo, Nirvana não é apenas uma palavra. É uma idéia.

Mas Sidarta prosseguiu:
- Uma idéia. Pois não. Confesso-te, meu caro, que não faço muita distinção entre palavras e idéias. Para falar com toda a franqueza: não ligo grande importância às próprias idéias. As coisas têm para mim muito maior significado.
Nessa balsa aí, para dar-te um exemplo, houve um homem, meu predecessor e meu mestre, que durante logos anos, à sua maneira singela, cria no rio e em nada mais. Percebera que a voz do rio se dirigia a ele. Dela aprendia. Ela educava-o e instruía-o. O rio parecia-lhe um deus.
Por muito tempo ignorava esse homem que qualquer aragem, qualquer nuvem, ou ave, ou besouro, são igualmente divinos e sabem tanto, podem ensinar-nos tanto quanto aquele adorado rio. Ora, quando esse santo se encaminhou à selva, sabia tudo, sabia mais do que tu e eu, sem professor, sem livros, unicamente por ter acreditado no rio.

Replicou Govinda:
- Mas, dize-me: aquilo que chamas de coisas é mesmo algo real, algo essencial? Não será apenas uma ilusão da Maia, simples miragem, pura aparência? Essa tua pedra, tua árvore, teu rio, são ou não são realidades?

- Esse problema - disse Sidarta - não me preocupa tampouco. Quanto a mim, as coisas podem ser mera aparência, uma vez que, neste caso, também eu sou aparência, e assim serão elas sempre meus iguais. Eis o que as torna para mim tão caras e venerandas: são como eu. Por isso posso amá-las.
E com isso te comunico uma doutrina que te fará rir, ó Govinda: tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo.
Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas com amor, admiração e reverência.

- Compreendo - disse Govinda. - E, no entanto, é precisamente isso o que o Augusto qualificava de ilusão. Ele proclamou a benevolência, a tolerância, a compaixão, o comedimento, mas nunca o amor. Pelo contrário, proibiu-nos ligarmos o nosso coração amorosamente às coisas terrenas.

- Sei disso - tornou Sidarta, cujo sorriso resplandecia como ouro. - Sei disso, ó Govinda. Imagina só: neste instante já nos enredamos na confusão das opiniões. Estamos em plena discussão a propósito de palavras.
Pois bem, não posso negar que as palavras que proferi a respeito do amor estão em desacordo com os ensinamentos de Gotama. Justamente por isso desconfio tanto de quaisquer palavras, porquanto sei que essa divergência é apenas ilusão. Tenho certeza de estar concorde com Gotama.
Como seria possível que Ele desconhecesse o amor; Ele que reconhecia a efemeridade e a fraqueza de toda a natureza humana e todavia amava os homens a ponto de devotar a sua longa e laboriosa existência à única tarefa de ajudá-los e ensiná-los.
Também com relação a ele, teu grande mestre, as coisas têm, a meu ver, mais valor do que as palavras. O gesto da sua mão me importa mais do que as suas opiniões. Não é nos seus discursos e nas suas idéias que se me depara a sua grandeza, senão unicamente nos seus atos e na sua vida.

Por muito tempo, os dois velhos permaneceram calados. A seguir, Govinda inclinou-se para despedir-se.
- Fico-te muito grato, ó Sidarta - disse - por teres-me revelado um pouco dos teus pensamentos. É bem verdade que alguns deles são bastante estranhos. Não consegui compreender todos eles de uma vez. Mas, seja como for, agradeço-te e desejo-te dias tranqüilos.
(Secretamente, porém, no fundo do seu coração, ponderava: “Esse Sidarta é um homem esquisito. Prefere idéias curiosas. Sua doutrina parece tola. Como são diferentes os ensinamentos do Sublime! Parecem mais claros, mais puros, mais acessíveis. Neles, nada é excêntrico, disparatado, ridículo.
E, no entanto, acho que há uma grande diferença entre as idéias de Sidarta, de um lado, e suas mãos, seus pés, seus olhos, sua testa, seu modo de respirar, de sorrir, de andar, de saudar-me do outro. Nunca, desde o dia em que o nosso augusto Gotama entrou no Nirvana, nunca mais vi pessoa alguma em face da qual sentisse logo: esse aí é um santo!
Isso somente me ocorreu agora, na presença de Sidarta. Pode ser que a sua doutrina seja surpreendente, que suas palavras soem pasmosas. Mas seu olhar, sua mão, sua pele, seu cabelo - tudo isso irradia tamanha calma, doçura e santidade como jamais encontrei em nenhum outro homem, desde a última morte do nosso excelso Mestre.

Enquanto falava assim de si para si, com o coração agitado por sentimentos contraditórios, aproximou-se mais uma vez de Sidarta como que atraído pela afeição.
Em seguida, curvou-se profundamente diante do amigo que se conservava sentado, imóve1.
- Sidarta - disse então - ficamos velhos. É pouco provável que nos tomemos a ver sob esta forma da nossa existência. Vejo, meu querido, que encontraste a paz. Confesso que eu não consegui localizá-la. Dize-me mais uma palavra, ó Venerando. Dá-me algo que eu possa levar comigo, alguma coisa que me seja possível entender e assimilar durante a minha jornada. Olha, Sidarta, esse meu caminho é às vezes bastante laborioso e sombrio.
Sidarta permaneceu calado. Limitou-se a fitar o outro com aquele seu sorriso plácido. Govinda cravou os olhos no rosto do amigo. No seu olhar, liam-se angústia, saudade, sofrimento, tanto como contínua busca, contínuo desencontro.

Sidarta percebeu-o e sorriu:
- Acerca-te de mim! - soprou ao ouvido de Govinda.
- Inclina-te mais! Mais ainda. Chega-te para bem perto de mim! E agora me dá um beijo na testa, ó Govinda!

Govinda pasmou-se, mas, atraído por sua grande afeição e por algum pressentimento, obedeceu ao desejo de Sidarta. Achegando-se a ele, imprimiu-lhe os lábios na fronte. E nesse instante aconteceu-lhe qualquer coisa singular.
Enquanto os seus pensamentos ainda se detinham nas palavras estranhas, proferidas por Sidarta; enquanto seu espírito se esforçava, relutante e improficuamente, por eliminar o tempo e por representar-se a unidade de Nirvana e Sansara, enquanto no seu íntimo certo desdém pelas opiniões do amigo se debatiam com irrestrita ternura e reverência, deu-se com ele o seguinte fenômeno:
Govinda já não enxergava o semblante de Sidarta, seu companheiro. Em vez dele via outros rostos, inúmeros, toda uma fila, uma torrente de rostos, centenas, milhares, que todos eles apareciam, sumiam e todavia davam a impressão de estar presentes simultânea mente, rostos esses que a cada instante se modificavam e renovavam e, contudo, eram sempre Sidarta.
Via a cabeça de um peixe, uma carpa, com a boca semi-aberta em infinita dor, peixe agonizante, de olhos vidrados. Via o rostinho de uma criança recém-nascida, vermelho, enrugado, a ponto de chorar. Via a fisionomia de um assassino, no momento em que varava com a faca o corpo de sua vítima e, ao mesmo tempo, via esse criminoso a ajoelhar-se, algemado, para que o algoz o decapitasse com um só golpe de terçado.
Via os corpos desnudos de homens e mulheres, entrelaçados em posições e embates de desvairado amor. Via cadáveres prostrados, imóveis, gélidos, vazios. Via cabeças de animais, de javalis, crocodilos, elefantes, touros, aves.
Via divindades, Krishna, Agni... Via todos esses vultos e rostos ligados entre si por milhares de relações, cada qual a acudir o outro, a amá-la, a odiá-lo, a destruí-Ia, a pari-Ia de novo.
Cada qual expressava o desejo de morrer, era apaixonada e dolorosa a profissão de efemeridade e, no entanto, não morria, apenas se modificava, renascia uma e outra vez, tomava aspectos sempre diversos, sem que o tempo se intercalasse entre uma e outra configuração.
E todos esses rostos repousavam, flutuavam, geravam-se mutuamente, esvaíam-se e confundiam-se. Mas por cima deles, sem exceção, estendia-se uma camada fininha, irreal e todavia existente, qual tênue chapa de vidro ou de gelo, camada transparente, casca, molde, máscara de água.
Pois, essa máscara morria, e essa máscara era o rosto risonho de Sidarta, que ele, Govinda, nesse momento, tocava com os lábios. E Govinda percebeu que esse sorriso da máscara, o sorriso da unidade acima do fluxo das aparências, o sorriso da simultaneidade muito além do sem-número de nascimentos e mortes, o sorriso de Sidarta, era idêntico àquele sorriso calmo, delicado, indevassável, talvez bondoso talvez irônico, de Gotama, o Buda, tal como ele próprio o observara centenas de vezes com profundo respeito.
Era assim - Govinda o sabia - que sorriam os seres perfeitos.

Tendo perdido a noção do tempo, já não sabendo se aquela visão durava um segundo ou um século, ignorando se já existiam Sidarta, Gotama, o eu e o tu, com as entranhas como que atravessadas por uma seta divina, cuja ferida tivesse doce sabor, com a alma enfeitiçada e confusa, detinha-se Govinda por mais alguns instantes. Inclinava-se por sobre o rosto plácido de Sidarta, no qual vinha de depositar um beijo, e que acabava de ser o cenário de todas aquelas formas, evoluções e existências.
O semblante não se modificara, depois que, sob a sua superfície, tornara a fechar-se o abismo da infinita multiplicidade. Sorria silenciosamente, suavemente, ternamente, talvez com bondade, talvez com ironia, assim como outrora sorrira o Sublime.

Govinda curvou-se em genuína reverência. Lágrimas de que não se dava conta corriam-lhe pelas faces idosas.
No seu coração ardia, qual fogo, o sentimento de caloroso amor e de submissa veneração.
Profundamente, até ao chão, inclinou-se Govinda diante de Sidarta, que se conservava sentado, imóvel, e cujo sorriso chamava à memória do amigo tudo quanto ele amara no curso da sua vida, tudo quanto já se lhe afigurara precioso e sagrado.
Fim.

domingo, 11 de setembro de 2011

Um conto zen



Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.