Saudações:

Em homenagem e reverência profunda à minha Mestra de Ordenação e Treinamento, Venerável Shingetsu Coen Osho.
Que seu Corpo-Dharma, seja como um diamante inquebrantável.
Que tenha próspera longevidade e saúde ilimitada.
Que nenhum mal a atinja.
Que todos os seus esforços sejam recompensados.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Profetas e profecias

por Getúlio Taigen

Palestra proferida por Getulio Taigen na PUC durante uma conferência inter-religiosa.

Boa tarde a todos.
Eu me chamo Getúlio Taigen. Sou discípulo da Monja Coen – Primaz fundadora da Comunidade Zen Budista – ZendoBrasil e Missionária do Japão para a divulgação do Zen Budismo da Escola Soto no Brasil. Sou o responsável pelo San Zen Dojo – Centro Rio Zen Budista da Ilha do Governador que é a filial do Rio de Janeiro.

É motivo de grande satisfação o fato de poder estar aqui neste dia fazendo parte dessa mesa tão ilustre, por duas simples razões: a primeira é o privilégio de poder estar sentado ao lado da minha professora Monja Coen e a segunda é compartilhar da possibilidade de através de minhas singelas palavras trazer um pouco de alívio e alegria aos que nos ouvem.

Inicialmente para podermos falar de Compaixão, que é a maior tônica do Budha e do Dalai Lama, precisamos compreender um pouco como o Budismo entende as relações entre os seres e os objetos visíveis e não visíveis.

Tudo o que é visto através dos olhos, sentido através do tato, provado através da gustação, escutado através da audição e cheirado através do nariz é, tão logo se estabeleça o contato, rotulado como agradável, desagradável ou indiferente a isso o budismo dá o nome de Sensação, sendo considerado como o segundo agregado (o primeiro agregado é a matéria, ou seja, os objetos do mundo exterior).

O terceiro agregado são as Percepções, que do mesmo modo que as sensações, são produzidas mediante o contato de nossas faculdades com o mundo exterior. Por essa percepção é que reconhecemos pelo tipo e características, os objetos físicos e mentais.

O quarto agregado são as Formações Mentais, que formam os outros elementos condicionando a consciência, é uma condição necessária sem a qual o conhecimento ou consciência não vêm a existência.

O quinto agregado é a Consciência ou conhecimento, reação ou resposta às faculdades (visual, auditiva, olfativa, gustativa, tátil e mental). A consciência vem à tona quando uma das faculdades estabelece contato. Ex: Se existe algo para ser visto, luz suficiente e olhos para ver, produz-se imediatamente a consciência visual.

Todos esses agregados (matéria, sensação, percepção, formação mental e consciência) são inseparáveis, ou seja: ao olharmos uma comida também sentimos o seu cheiro; ao andarmos em um bosque de flores, sentimos o seu perfume e podemos tocar as flores. Ha uma interdependência entre todas as coisas, pois tudo o que existe é efeito de uma causa anterior e, por sua vez causa de um efeito posterior. Compreendendo assim a impermanência de tudo, a compreensão do mundo como um todo aparece clara e nítida. Tudo e todos são interdependentes.

Para melhor ilustrar o assunto, vou contar uma historinha budista. A historinha é importante por que sua moral nos ajuda a entender como se processa o inter-relacionamento de tudo e de todos. A historinha chama-se "A ratoeira".

"O ratinho estava olhando pelo buraquinho da parede e aí percebeu que os donos da casa tinham comprado uma caixa grande. Ficou muito curioso e pensou: - O que será que tem ali de bom para eu comer? Quando olhou mais atentamente, notou que o embrulho continha uma ratoeira.
O ratinho ficou preocupado, afinal uma ratoeira é para pegar ratos e eu sou um rato... Ato contínuo saiu correndo e no caminho encontrou com a galinha e, apressado falou para ela: - Nós estamos correndo um sério risco! Os donos da casa compraram uma ratoeira.
Como é que vamos resolver esse problema? A galinha respondeu: - Eu não vejo nenhum problema para mim. Eu nunca vi ninguém pegar galinhas com ratoeira. O sr. é quem deve estar um pouco preocupado, até porque eu não fico lá dentro da casa comendo a comida deles, nem fico me esgueirando pelos cantos. Eu sou uma pessoa importante nesta casa, eu dou ovos diariamente e assim falando saiu toda imponente ciscando chão.
O rato viu que não tinha jeito de convence-la e, saiu correndo em desabalada carreira. Correu, correu e encontrou-se com o porco. Quase sem fôlego falou: - Olha, o problema é bastante sério, compraram uma ratoeira! O que é que a gente vai fazer?!... A galinha nem ligou... O porco pensou um pouco e depois respondeu: - Meu amigo, o que é que eu tenho com isso, eu fico quase o dia todo preso no cercado! Além do mais o porco é dentro do reino animal um bicho importante, eu sou quase que reverenciado! Eles precisam de mim, não vê como sou bem alimentado.
E ninguém pega porco com uma ratoeira... O Sr. é que deve estar preocupado. Vou fazer o seguinte. Sempre que eu rezar vou pedir por você, orando que sua morte seja rápida... Desesperado o rato continuou correndo e encontrou-se com a vaca que descansava debaixo de uma árvore frondosa, chegou perto dela mais cauteloso e falou: - Sra vaca, compraram uma ratoeira!
A fazenda toda corre risco! Eu falei para a galinha, a galinha nem ligou. O porco riu de mim... E quanto a você, pretende fazer o que? Respondeu a vaca: - Eu??? E eu tenho alguma coisa a ver com uma ratoeira? Eu nunca ouvi falar na minha vida que uma vaca tenha sofrido algum tipo de constrangimento por uma ratoeira! Eu acho que o preocupado aqui é você... Eu não tenho nada com isso! Se eu fosse você corria e me escondia.
Onde já se viu uma vaca ter medo de uma ratoeira, logo o bicho mais importante do reino animal. E o rato, então, preocupado, sem ninguém para ajudar, se escondeu num cantinho lá e ficou quieto.
Nesta noite ouviu-se um grande barulho.
A ratoeira tinha pego alguma coisa... Os donos da casa se levantaram, A senhora foi rápido no escuro para pegar o que havia sido preso na ratoeira. A ratoeira havia pego uma cobra pelo rabo, era uma cobra muito venenosa, e o bicho estava vivinho da silva. A cobra picou a mão da senhora. E ela começou a ficar muito doente, co muita febre, seu marido, preocupado porque ela estava com muita febre, mandou matar a galinha e fazer uma boa canja.
Uma canja bem grossa é ótima quando a pessoa está com febre. Mas a senhora não melhorava e teve que ser hospitalizada. Ficou no hospital durante uma semana.
Vários parentes e amigos começaram para visitá-la. O marido sem saber como alimentar toda aquela gente que não parava de chegar, mandou matar o porco. Infelizmente, após uma semana senhora veio a falecer. A despesa com o enterro foi muito custosa, o marido teve que mandar matar a vaca e vender todos os pedaços para fazer jus aos compromissos assumidos com o falecimento.

Então, a pergunta que devemos nos fazer é: - Até quando vamos achar que aquele acontecimento ou aquela pessoa não tem nada a ver com a gente, não tem nenhum parentesco, não tem nenhum elo, não tem nenhuma proximidade?. Será que não percebemos que tudo e todos são totalmente interdependentes. Então, quando alguém comprar uma ratoeira prestem muita atenção... Pode acabar interferindo na sua vida!

Trata-se de um imenso erro rotularmos as coisas com as quais estabelecemos contato, como isso me satisfaz e aquilo não me satisfaz, aquilo lá me é indiferente e eu largo para lá! Na verdade não é. Somos todos animados pela mesma energia, bebemos a mesma água, comemos a mesma comida, respiramos o mesmo ar. Nascemos da mesma maneira. Somos iguais!.Apenas manifestamos fisicamente diferenças.

Vamos imaginar todos os seres como sendo parte de uma gambiarra de festa junina, e que nesta gambiarra estivessem presas várias lâmpadas, umas coloridas, outras maiores, umas com mais luz, outras com menos, umas amarelas, outras azuis, vermelhas etc., mas todas animadas pela mesma energia, pela mesma mente cósmica. E que esta energia, essa mente é a responsável pela nossa animação. Uma lâmpada fica amarela, outra verde, outra mais forte, uma pequena, outra grande, mas todas animadas pela mesma energia.

Somos todos interdependentes. Não podemos nos dar ao luxo de fazer separações. A separação produz sofrimentos para todos os seres.

Agora que entendemos um pouco mais sobre o fato de que somos todos irmãos, vamos falar de compaixão.

Compaixão... Se separarmos as palavras, fica "com" e "paixão", nos passando a idéia de que devemos que ter "paixão"... em todos os nossos atos. A paixão é um amor desmedido, sem barreiras e sem obstáculos. Cada coisa, cada ato, cada palavra, cada pensamento deve vir recheado de uma grande amor, deve ser vivenciado "com...paixão" .

Ao perceber que estamos fazendo algo errado, algo incorreto e, sempre percebemos o erro, pois esta percepção é inata, no fundo a gente sabe o que é certo e o que é errado, nascemos com esse princípio, sabemos a diferença.

Temos que nos lembrar de que ao fazer algo "com... paixão" esse ato é naturalmente certo. Entretanto este ato deve ser feito descompromissadamente, sem interesse, sem estimativa de retorno de qualquer espécie. Em japonês isso se chama ishinryo mushotoku.

O ato deve ser feito, porque é o certo a ser feito naquele momento, não porque se deseja um retorno ou alguma vantagem decorrente do ato praticado.

Tem uma outra historinha budista em que dois monges celibatários, um mestre e seu aluno, ambos vinham andando pela rua. Eles tinham feito votos de celibato, chovia muito e no caminho que eles percorriam havia se formado uma grande poça de água que dificultava as pessoas de passarem.

Uma jovem se encontrava com grande dificuldade em atravessar por causa de suas roupas. O Mestre percebendo o problema da moça com muita gentileza pegou-a no colo, atravessou a poça, desceu a moça do outro lado e foi embora sem dizer uma só palavra. O aluno ficou com os olhos arregalados do tamanho de um pires e durante o dia inteiro olhou para o mestre com um semblante preocupado. Chegando a noite, o aluno não agüentou mais e perguntou: - Mestre, o Sr. não disse que a gente não deve ter contato com as mulheres para manter o celibato? O senhor pegou de manhã uma moça no colo. Aí o mestre falou: - Mas eu já larguei essa moça há horas atrás, você é que continua segurando-a. No exato momento em que a coloquei no chão eu a larguei, você é que mantém a moça no seu pensamento...

A ação desinteressada, fazer o que é certo no momento certo, ter compaixão, ajudar os outros, colaborar para que as pessoas possam fazer brilhar a luz interna que tem dentro delas, ajudando a dissipar as trevas da ilusão e da ignorância, porque esses são os venenos que nos poluem e nos estragam, produzindo muito sofrimento, agindo assim não causamos nem produzimos sofrimento e, também não estamos causando o sofrimento das pessoas que nos rodeiam.

Através da ganância também produzimos dor, angústia e mais sofrimento, ganância é sempre querer alguma coisa mais, nunca estar satisfeito com o que se possui.

Na verdade somos gananciosos, porque não reconhecemos que as coisas são impermanentes, que se modificam, se alteram, se transformam. E se são impermanentes, naturalmente que são insatisfatórias.

A mesma taça de chocolate de agora, daqui a meia hora tem um sabor diferente. A mesma pessoa não pode tomar banho no mesmo rio duas vezes, porque a água que o molhou não é mais a mesma, e a pessoa que tomou o primeiro banho também já se modificou.

Temos que repensar a nossa maneira de viver. A maneira melhor de mudar a vida é mudar a nós mesmos. É começar a nos transformarmos naquilo sabemos ser o certo.

Se consideramos incorreto falar alto, falemos baixo. Se acharmos que falar palavrão não é bom, não vamos falar mais. Não precisa chamar atenção daqueles que procedem errado, apenas proceda certo... E esse seu "não-fazer", automaticamente começa a influenciar as pessoas que estão bem perto de você.
Elas começam a perceber: - Mas por que será que ele é assim? Ele é muito tranquilo é um "cara" calmo, pausado, acha a vida boa, não acontece muita coisa errada com ele.
Vou começar a prestar mais atenção nele. Ah! ele fica perambulando perdido pela rua, não tem más companhias como amigos. É ele tem uma vida correta... Vou tentar fazer o mesmo! Talvez por isso ele seja tão simpático e educado.

Com tua postura, com teu exemplo você vai agindo na formação daqueles que te rodeiam. Afinal, como é que ensinamos aos nossos filhos? Não ensinamos falando, gritando, batendo ou colocando de castigo, ensinamos pelo exemplo, pela postura e pela maneira de ser. É de conhecimento público que as crianças aprendem a fumar nos vendo fumando. Eles aprendem a beber nos vendo bebendo. Eles falam palavrão, porque nos escutam falar palavrões. Se tivermos uma melhor postura, eles passam a ter um bom exemplo a seguir, uma referência correta.

É necessário um grande esforço em ter uma vida correta, pautada em sentimentos corretos, atitudes corretas e pensamentos corretos, afastando a ganância, que é a vontade de sempre querer mais; a raiva, de não poder ter ou ser o que se deseja, e a ignorância, que é o desconhecimento de tudo isso.

Quando a gente começa a trilhar esse caminho, que chamamos de "o caminho de Buda", mas podemos dar o nome que vocês quiserem, talvez possamos chama-lo de "o caminho correto" a nossa vida começa a mudar e, quando a nossa vida muda, muda a vida de todos que estão ao nosso redor.

Uma vez Budha vinha andando e viu duas pessoas conversando. Eles eram dois equilibristas de circo, o mais forte falou para o outro o seguinte: - Olha, eu vou tomar conta de você, porque enquanto eu estiver tomando conta de você, você não se desequilibra e cai.
E se você tomar conta de mim, o mesmo acontece, porque enquanto você tomar conta de mim eu também não me desequilibro e caio, dessa maneira podemos efetuar várias acrobacias e criarmos ótimos espetáculos sem que nos machuquemos!
O Budha após pedir licença, disse: - Não! vocês não estão certos. Quando estiverem treinando as manobras acrobáticas, você toma conta de você mesmo, disse para o mais forte e, ele, apontando para o outro, toma conta dele mesmo.
Porque enquanto você estiver tomando conta de você mesmo, automaticamente você toma conta dele. Quando você consegue resolver o seu problema, naturalmente você começa resolver o problema dos outros que estão ao seu redor.

Se você não consegue resolver o seu problema pessoal, como pretende resolver o dos outros, ajudar aquela outra pessoa? Dar conselhos? Equilibrar? Impedir que caia? E como é que se faz para ajudar, continuou o Budha aos equilibristas.
Fazendo exercícios para ficar mais forte, efetuando alongamentos para ficar mais flexível, fazendo meditação para compreender a vida como ela é e, não tremer na hora em que estiver oferecendo apoio para o companheiro. A recíproca é a mesma, o equilibrista de cima também deve se esforçar para estar equilibrado não só física como mentalmente de modo a não derrubar o de baixo.

Cara platéia, o que pretendemos com todos esses exemplos? Desejamos que a nossa vida se transforme, porque quando transformamos nossa vida, transformamos tudo que está o nosso redor.

Tem um ditado que diz que quando uma borboleta bate as asas no Amazonas, produz uma onda no Japão! Tudo é interdependente! Tudo se emaranha, se mistura. Isso gera isso, que gera aquilo, que vai gerar aquilo outro.

Quando estivemos fazendo alguma coisa, temos que ter atenção e cuidado porque estamos gerando e produzindo outras coisas. Estas outras coisas, se não corretas podem causar prejuízos.
Quando damos um passo para o lado certo, o lado certo dá dois passos para o nosso lado. Quando damos um passo para o lado errado, o lado errado também dá dois passos para o nosso lado. Nós podemos decidir para que lado andar. Uma vez dado o passo, seja certo ou errado, não podemos reclamar do resultado posterior. Caso sua vida seja recheada de resultados ruins foi porque deu vários passos errados.

O hoje condiciona todo o passado e o futuro vai conter todo o presente. Se hoje não dermos os passos corretos hoje, agora, neste momento, como será o nosso amanhã?

Como será o futuro da humanidade, do planeta? Estamos poluindo os nossos rios e mares, acabando com as nossas florestas, extingüindo os animais. Somos nós, que estamos fazendo isso, nossa geração! Nesses últimos 40, 50 anos maltratamos demais o planeta em que vivemos, todos nós temos culpa. Devemos começar a fazer alguma coisa agora porque amanhã não dará mais tempo. O que pretendemos deixar de herança para os nossos netos?

Neste momento, eu convoco todos os presentes a iniciarem imediatamente uma reforma interna, tendo como armas à compaixão e como arsenal a vontade férrea de querer deixar um mundo melhor.

Agradeço a paciência de todos os presentes e, peço que os méritos conseguidos com essa série de palestras sejam revertidos para todos os seres que estejam em sofrimento.

Que a infinita bondade e compaixão de todos os Budhas do passado e do presente recaiam sobre vossas cabeças.

É o que eu tinha a falar.

Obrigado

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A História da Arte Maravilhosa de Um Gato


 
 
 
Era uma vez um mestre de esgrima chamado Shoken. Em  sua casa vivia uma ratazana, uma verdadeira praga. Ela aparecia andando para baixo e para cima, até a luz do dia. Certa vez, Shoken fechou a  porta, para que o gato pudesse apanhá-la. Porém, ela pulou no focinho do gato e o mordeu tanto, que ele fugiu gritando. Essa tentativa fracassou.
 
O dono da casa trouxe então outros gatos da vizinhança, que gozavam da fama de corajosos, e os colocou dentro do quarto. A ratazana se acocorou num canto e, tão logo um gato se aproximava, ela pulava, mordia e punha o gato a correr. 
A ratazana parecia tão feroz, que todos os gatos hesitavam em se aproximar uma segunda vez. Shoken ficou furioso, e resolveu apanhar ele mesmo a ratazana e matá-la.  
Porém, apesar de sua destreza, a ratazana escapava a cada golpe do mestre de sua esgrima, e este não conseguiu acertá-la. Em suas tentativas, ele dilacerou portas, shojis e karamanis. Mas a ratazana parecia deslizar no ar, rápida como um raio, escapando de cada um dos seus golpes: finalmente ela pulou em seu rosto e o mordeu. Banhado de suor, ele chamou seu ajudante e disse: "Parece que a seis ou sete léguas daqui há um gato que dizem ser o mais esperto do mundo. 
Vá e traga-o aqui!". O empregado trouxe o gato. Este não parecia distinguir-se dos outros gatos, não aparentava ser especialmente inteligente, nem feroz. Por isso, ao vê-lo, o mestre de esgrima não alimentou grandes esperanças; mesmo assim, entreabriu a porta e o deixou entrar. O gato entrou muito tranquilo, devagarinho, como se não esperasse nada de extraordinário. A ratazana, entretanto, teve um sobressalto e permaneceu imóvel. O gato simples mente foi se aproximando, muito devagar, agarrou-a com a boca e a levou para fora.
 
Nessa noite, os gatos vencidos reuniram-se na casa de Shoken, ofereceram o lugar de honra ao velho gato, fizeram uma respeitosa reverência diante dele e disseram, modestos: "Todos nós gozamos da reputação de ser bons trabalhadores. 
Todos nós nos exercitamos neste ofício, e afiamos nossas garras de modo a poder vencer toda espécie de ratos, e até doninhas e gambás. Nunca poderíamos imaginar que existisse uma ratazana tão forte! Como é que você conseguiu vencê-la tão facilmente? Não guarde segredo da sua arte; por favor, revele-a para nós". 
Então o velho gato sorriu e disse: "É verdade que todos vocês, gatos jovens, são trabalhadores esforçados. 
Mas desconhecem o caminho correto. Por isso, ao se depararem com alguma coisa inesperada, falham. Mas primeiro contem-me como vocês têm praticado."
 
"Um gato preto aproximou-se, então, e disse: "Sou descendente de uma família famosa pela caça de ratos. Por isso decidi seguir o mesmo caminho. Sei pular sobre uma muralha de dois metros. Sei me espremer num buraco tão pequeno, que só um  rato é capaz de atravessar. 
Desde criança tenho praticado todas as artes acrobáticas. Até mesmo ao acordar, ainda meio adormecido e com os reflexos lentos, basta-me ver, de relance, um rato passar, e já o peguei! Mas a ratazana de hoje foi mais forte do que eu, e sofri a mais terrível derrota de toda a minha vida. Estou envergonhado."
 
O velho gato retrucou: "O que você praticou nada mais foi do que a técnica (shosa, a mera arte física), mas você está obcecado com a pergunta: como vencer? E, portanto, fica apegado a uma meta! Quando os antigos mestres ensinavam a "técnica", eles o faziam para indicar uma forma de caminho (michisuji). Sua técnica era simples e, no entanto, encerrava a mais elevada verdade. 
 
Seus sucessores, porém, só se ocupam com a técnica. É claro que descobriram trejeitos novos, e por isso seguiram a receita do tipo "fazendo isto ou aquilo, se obtém tal e tal resultado". 
Mas qual é o verdadeiro resultado? Nada além de certa destreza. Assim foi esquecido o antigo modo tradicional, e os praticantes usaram sua inteligência até a exaustão, cada qual tentando superar a técnica do outro. E agora já não sabem como continuar. I
sto é o que sempre ocorre quando só se presta atenção à técnica e quando as pessoas confiam inteiramente na própria inteligência. Esta é deveras uma função do espírito, mas se não for baseada no caminho e apenas visar  a habilidade, esta o colocará na senda errada, e tudo o que você conseguir será prejudicial.Procure a verdade na profundidade do seu Ser e pratique de agora em diante o caminho correto.
 
"A seguir, um grande gato tigrado aproximou-se e disse: "Acredito que, nas artes marciais, só o espírito importa. Por isso, desde cedo, exercitei essa força. 
Resultou em  que sinto o meu espírito "rígido como o aço", livre, carregado  do "espírito ki" que preenche o céu e  a terra . Já ao ver o inimigo, esse espírito onipotente o prende, e obtenho a vitória antes mesmo de começar. 
Só então faço o primeiro gesto! Inconscientemente, cada movimento acontece de acordo com o que a situação requer. Adapto-me ao "som" do meu oponente, lanço o meu poder sobre o rato, faço com que vá para a direita ou para a esquerda a meu bel-prazer, antecipando-me a cada gesto dele. 
Não me importo absolutamente com a técnica, que surge espontaneamente. Quando um rato vai passando, eu o fito com o olhar, e imediatamente ele cai, é minha presa. Mas essa ratazana misteriosa aparece sem forma e desaparece sem deixar traços. O que será isso? Eu não sei!"
 
Então o velho gato lhe disse: "O que você treinou é o efeito que provém da grande força que preenche o céu e a terra. Mas você adquiriu apenas uma força psíquica, que nada tem que ver com um bem que realmente mereça esse nome. 
O mero fato de  estar consciente da força com a qual você deseja vencer já inibe a vitória. O seu eu está em jogo.E se por acaso o eu do outro  for mais forte que o seu, o que acontece? 
Se você quer vencer o inimigo com a sua força superior, ele joga a força dele contra a sua. Será que você imagina realmente que será sempre mais forte, e que todos os outros serão mais fracos? 
Como você agirá se houver algo que a sua grande força, mesmo com a melhor boa vontade, não conseguir vencer? 
Esta é a pergunta a ser formulada! A força espiritual interior que você sente "livre" e "dura como o aço", capaz de "preencher o céu e a terra" não  é a grande força em si, porém o seu reflexo.
 
É o seu próprio espírito, portanto, apenas a sombra do Grande Espírito. É verdade que, às vezes, se apresenta como a grande força oniabrangente, mas na realidade trata-se de algo totalmente diferente. 
O espírito a que se referia é forte porque permanece iluminado pela grande claridade. Porém o seu espírito só é imbuído de força em certas circunstâncias. 
Sua força e aquela mencionada por Mêncio procedem de origens diferentes, e por isso também atuam de modo diverso. 
São tão diferentes como o eterno fluxo de um rio, como por exemplo, o Yang-tsé, e uma corrente repentina que se forma durante a noite. Mas qual é o espírito a ser preservado quando você se encontra diante de algo que não pode ser vencido por nenhuma força espiritual (ki sei)? 
Esta é a pergunta a ser formulada! Diz um ditado: "Um gato encurralado morde até outro gato!"
 
Se o inimigo está encurralado, correndo perigo de vida, ele já não se importa com nada. Ele esquece a própria vida, esquece todo o sofrimento, esquece de si mesmo, não pensa em vitórias ou derrotas. Ele nem sequer nutre a intenção de cuidar da sua própria segurança. E por isso torna-se duro como o aço. Como será possível vencê-lo através dos poderes espirituais que você atribuia a si mesmo?"
 
"A essa altura, um gato mais velho aproximou-se lentamente e disse: "Sim, tudo o que você disse é verdade. Por mais forte que seja, a força psíquica tem uma forma (katachi). 
E tudo aquilo que tem uma forma, por menor que seja, pode ser tocado. Por isso, há muito tempo estou a exercitar lentamente a minha alma (kokoro, a força do coração). 
Não pratico a força que domina espiritualmente o outro (O-sei usado pelo segundo gato). Também não me fico a me debater, como o primeiro gato. 
Faço as pazes com o meu oponente, permito que se forme uma unidade com ele, e não me oponho a ele de modo algum. Se o outro for mais forte do que eu, simplesmente me rendo e  finjo que faço o que ele quer. 
De certo modo, minha arte consiste em pegar as pedrinhas que são arremetidas sobre uma cortina solta. Por mais forte que seja, o rato que queria me agredir nada encontra que possa agarrar. Hoje, porém, essa ratazana simplesmente resistiu ao meu jogo. Ela ia e vinha tão misteriosamente quanto o próprio Deus. Nunca vi nada igual."
 
Então o velho gato replicou: "O que você chama fazer as pazes não procede da essência intríseca, nem da grande natureza. É uma paz elaborada, artificial, um truque. 
Você consciente/mente quer iludir o intuito agressivo do seu oponente. Mas por pensar a respeito, mesmo durante um breve momento, ele nota a sua intenção. 
Se você tenta uma "reconciliação" nesse estado de espírito, só confunde e obscurece o seu próprio instinto agressivo, e a precisão de sua percepção e da sua ação fica prejudicada. T
udo aquilo que você fizer com uma intenção inibe o ímpeto original e secreto da grande natureza, e perturba o fluxo do seu movimento espontâneo. 
Como é que você pode esperar um milagre deste modo? Só quando você  não pensa em nada, quando não deseja nem faz nada, e se rende incondicionalmente ao seu próprio ritmo e à vibração da sua natureza intrínseca (shizen no ka), quando já não tem nenhuma forma palpável, é que já nada mais no mundo pode surgir  como contraforma. Então já não existe nenhum inimigo que possa  se opor a você."
 
Não acredito, por um segundo sequer, que tudo aquilo que vocês praticaram tenha sido inútil. T
udo, absolutamente tudo, pode converter-se numa forma de caminho. A técnica e o caminho também podem ser uma única e a mesma coisa, e o espírito que tudo governa estará então contido na técnica e falará através dos gestos do corpo. 
A força do grande espírito (ki) serve à pessoa humana (ishi). Se o seu ki é liberado, você está eternamente livre para ir ao encontro de tudo, da maneira correta. 
Se o seu espírito está genuinamente reconciliado e em paz, você não pode ser atingido nem com pedras, nem com ouro, e não precisará de esquemas especiais para entrar em luta. 
Uma única coisa conta: que não haja nem um sopro de consciência do ego em jogo, se não tudo estará perdido. Se você pensar a respeito, nem que seja por uma mínima fração de tempo tudo se torna algo artificial e não fluirá mais a partir da essência, da vibração primordial do corpo do caminho (do-tai). 
Se isso ocorre, então o seu inimigo também resistirá, em vez de fazer o que você espera dele. Portanto, que espécie de método e de arte devem ser empregados? Só quando você estiver livre de qualquer tipo de consciência (mushin), quando você agir sem agir, sem intenções ou truques, em harmonia com a grande natureza de todas as coisas, é que você estará no caminho correto. 
Deixe portanto,de lado, qualquer intenção, exercite-se completamente destituído de intenções, e deixe simplesmente que as coisas aconteçam a partir da sua essência intrínseca, de sua verdadeira natureza.
 
Esse caminho é sem fim e inesgotável. "E o velho gato acrescentou ainda algo surpreendente: "Vocês não devem acreditar que o que eu lhes disse hoje seja a última palavra. 
Há pouco tempo vivia numa aldeia vizinha um velho gato. Ele dormia o dia inteiro. À sua volta, porém, não havia o menor vestígio de qualquer coisa que pudesse assemelhar-se a alguma força espiritual. Ele permanecia deitado como um tronco. 
Ninguém jamais o viu apanhando um rato por perto.Mas não havia o menor vestígio de rato onde quer que ele aparecesse ou permanecesse. 
Eu o procurei certo dia e lhe pedi que me explicasse esse fenômeno. Ele não me respondeu. Repeti minha pergunta três vezes. Ele se calou. Na realidade, não se tratava de não querer responder, pois ele evidentemente não sabia o que dizer. 
E então eu soube: "Aquele que sabe não diz, e aquele que diz não sabe". 
Este gato havia se esquecido de si mesmo e de tudo quanto o rodeava. 
Havia se convertido em "nada", havia alcançado o mais alto nível de ausência de intenção. 
Poderíamos até afirmar que ele havia encontrado o divino caminho da "cavalaria": vencendo sem matar. Falta-me ainda percorrer um longo caminho para chegar lá."
 
Ao ouvir isso tudo, Shoken indagou: "O que significa não haver um eu, nem um antieu, não haver sujeito nem objeto?" E o gato replicou: "Quando há um eu, há também um adversário. 
Quando   o homem não se apresenta como um eu, também não há um adversário.  
Adversário é o princípio da oposição. Enquanto as coisas mantêm uma forma, implicam a existência de uma antiforma. 
Sempre que se define qualquer coisa, ela passa a ter forma própria. Se a minha essência íntima é desprovida de forma, não existe a sua antiforma. 
Não havendo oposição, nada se opõe a nada. E isso significa o seguinte: não há um eu, nem um antieu. Ao se soltar completamente, ao se tornar totalmente livre, fundamentalmente desapegado de todas as coisas, o homem se encontra em harmonia com o mundo, tornar-se Um com as coisas na grande Unidade Total. 
Mesmo se a forma do seu oponente se extinguir, ele permanece completamente alheio a esse desaparecimento. Não se trata de não perceber essa extinção, mas de não se fixar nisso, de não se ater a isso. 
Seu espírito continua a se movimentar livremente, isento de qualquer fixação, e suas ações fluem diretamente da sua essência intrínseca.
 
"Se o nosso espírito já não se apega mais a nada, livre de todo e qualquer apego, então o mundo, tal como é, será completamente nosso, será Um conosco. Isso significa que agora nós o aceitamos, transcendendo o bem e o mal, a simpatia ou a antipatia. 
Nada mais nos prende, e também a nada mais nos agarramos. Todas as oposições que nos aparecem - ganho ou perda, bem ou mal, alegria ou dor - provêm de nós mesmos. 
Por isso não há nada entre o céu e a terra que seja tão valioso para nós como o conhecimento da nossa própria natureza intrínseca. 
Dizia um antigo  poeta: "Um grãozinho de poeira no seu olho, e os três mundos são ainda demasiado estreitos; se já não nos importamos com nada, a menor cama ainda será grande demais." Ou em outras palavras: um grãozinho de poeira, ao entrar em nosso olho, impede que ele se abra, pois algo atrapalha a visão clara, que só acontece quando não há nada no interior do olho. 
Isso pode  ser uma metáfora do Ser - a luz que brilha e ilumina, em si mesma é completamente isenta de tudo o que é "qualquer coisa". Mas quando qualquer coisa se coloca diante do Ser, essa imagem destrói a sua virtude. "
E outro poeta dizia: "Se você está rodeado por cem mil inimigos, então aquilo que você é, na sua própria forma, fica esmagado. Mas a natureza intrínseca é sua, e permanece sua, por mais forte que seja o inimigo. Pois nenhum inimigo pode jamais penetrar."Dizia Confúcio: "A essência intrínseca não pode ser roubada nem mesmo de um homem pobre. Mas se o seu espírito torna-se confuso, sua essência intrínseca volta-se contra ele."
 
"Isto é tudo o que eu lhes posso dizer. Penetrem no interior de vocês mesmos, e procurem conhecer-se melhor. 
Um mestre só pode tentar transmitir algo ao aluno e tentar explicá-lo. Porém,  só você mesmo pode reconhecer a verdade e apropriar-se dela. 
A isso se chama "autoconhecimento" (jitoku). 
A transmissão se dá de coração a coração (ishin denshin). Trata-se da transmissão de um dom por intermédio de sendas extraordinárias, que transcendem o vazio e a erudição (kyogai betsuden). 
O que não  significa que contradizem os ensinamentos do mestre. Quer dizer apenas que mesmo um mestre não é capaz de transmitir a verdade.
E isto não é válido somente para o Zen. Desde os exercícios espirituais dos antigos, desde a arte de aprimoramento da alma até as belas artes, o elemento vital sempre foi o autoconhecimento, e este só pode ser transmitido de coração a coração,além de qualquer ensinamento comunicado. 
O propósito de cada ensinamento é apenas: apontar e ressaltar aquilo que todo homem já possui sem saber.Também não existe nenhum segredo que o mestre possa "passar" para o discípulo. 
É fácil ensinar. Ouvir é fácil. Difícil é conscientizar-se daquilo que se possui dentro de si mesmo, encontrá-lo e tomar posse dessa essência adequadamente. 
A isso chamamos olhar para dentro de si mesmo, a isso denominamos visão da essência (ken-sei, ken-sho). Se isso ocorrer, alcançamos o satori. É o grande despertar do sonho, das ilusões  e dos enganos. Despertar - vislumbrar a nossa natureza intrínseca, perceber a própria verdade - é tudo a mesma coisa."

Ito Tenzen Chuya


Takeharu Teramoto foi almirante e antigo professor da Academia de Marinha de Tóquio. Sua prática (gyo) era a esgrima. Essa história lhe foi transmitida por seu mestre, o último de uma escola de esgrima na qual a história dos cinco gatos havia sido secretamente transmitida desde o século XVII."

Karlfried Graf Dürckhei

Liturgia Zen.

                                                        
Os principais gêneros de literatura Budista usados na liturgia da escola Soto Zen no Japão são:
1. Sutras (kyo).     

2. Dharanis (Darani).                                                                                                                                        
3. Tratados (Ron).                                                                                                                                                      
4. Ekos (Eko Mon)                                                                                                                                                              
5. Versos (Ge, Mon). 

As escrituras budistas são numerosas (os textos antigos falam em 84.000 ensinamentos), variadas em sua forma literária. Extremamente ricas e diversificadas em seu conteúdo filosófico, ético e espiritual, quando recitadas no contexto das práticas e rituais formais, possuem funções que podem ser claramente distinguidas.

1. Os Sutras são os textos reverenciados como sermões do Budha Shakyamuni (Budha histórico). Os Sutras utilizados mais utilizados são.                                                                                                          
. Sutra do Coração da Grande Sabedoria Completa (Maka Hanya Haramita Shingyo).                                                    
. Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa (Myôhôrenguekyô Kanzeonbosatsu Fumonbongue).                                 
. O Poema da Longevidade do Tathagata (Myôhôrenguekyô Nyorai Juryôhon Gue).                                       
.  Sutra da Rede de Bhrama (10 Preceitos Maiores e 48 Preceitos Menores do Bodisatava).                     
 . Sutra Ullambana.                                                                  
 . O Sutra da Harmonia da Sangha .                                                   . Sutra da Grande Ordem.                                                                                                                              
Estão escritos e são recitados em chinês clássico. É utilizada uma transliteração japonesa, incompreensível para o leitor comum. Apesar de muitos dos ensinamentos e crenças neles expressos serem muito importantes para a tradição Zen, a principal razão para se recitar os Sutras em um contexto litúrgico não é promover seu significado, e sim produzir mérito espiritual (kudoku), subsequentemente oferecido e dedicado ritualmente para uma série de seres e propósitos. Em alguns ritos elaborados, o mérito é produzido através do ato de “revolver o Sutra” (tendoku), que consiste em girar as páginas de um longo Sutra sem realmente recitar nenhuma palavra. Atualmente traduções em nossa língua estão sendo produzidas para melhor entendimento.

2. As Dharanis (mantras) são fórmulas mágicas.                       
 Conjuntos de sons considerados sagrados e poderosos, embora muitas vezes tenham pouco ou nenhum valor semântico discernível. A pronúncia correta dos sons é considerada necessária para que eles sejam efetivos.                                                                                 
 Os caracteres chineses clássicos com que as Dharanis estão escritos foram selecionados por seu valor fonético (não seu significado), como um meio de transliterar (não traduzir) fórmulas mágicas originalmente escritas e/ou recitadas em linguagem indiana.                                                                              
 Os manuais litúrgicos japoneses sempre incluem um guia de pronúncia, escrito em caractere kana, que estão lado a lado com os caracteres chineses. As Dharanis utilizam um modo de expressão que é performático ao invés de comunicativo, por isso não são traduzidos.                                                                                                                     
Os principais Daranis recitados são:                 
 . O Mantra da Grande Compaixão (Daihi Shin Dharani)                                       
. O Mantra para a Prevenção de Desastres (Shô Sai Myô Kichi Jo Dharani).     
      
Acredita-se que, através de sua recitação, ações podem ser magicamente realizadas, tais como apaziguar espíritos, prevenir desastres, evitar doenças, produzir harmonia etc. Entretanto, sua principal função na liturgia da escola Soto Zen, assim como os Sutras, é produzir mérito para dedicação ritual. Os Daranis não podem ser traduzidos.

3. Os Tratados são comentários sobre os Sutras ou apresentações independentes da doutrina Budista, atribuídos a Ancestrais e Patriarcas importantes.                                                                            
 Esses são os tratados utilizados regularmente na liturgia SotoZen.                        
. A Identidade do Absoluto e do Relativo (Sandôkai), de Shitou Xiqian (700-790).                                         
. O Samadhi do Espelho Precioso (Hôkyôzanmai), de Dongshan Liangjie (807-869).    
. O Mantra do Vitorioso (Butchô Sonshô Darani).                            
 . O Mantra da Grande Compaixão (Daihi Shin Darani).
. O Portal do Doce Néctar (Kanromon).                                                                                                                
. Mantra de Jizô Bodisatva (Jizo Konpon Darani).
. Mantra de Fudô-myô.
. Mantra de Daikoku-ten (Daikoku Sonten Darani) e
. Mantra de Idaten Sama.                                                                                                                       
Estes textos, originalmente escritos em chinês clássico, são recitados em sua tradução japonesa.  Quando recitados no contexto de oferendas rituais para os professores ancestrais (soshi), eles servem ao propósito duplo de gerar mérito e honrar os autores, que pertencem e são representativos da linhagem da escola Soto Zen.                                                                                                                               
 Dois outros tratados utilizados na liturgia Soto são:   
                    
. As Instruções Universalmente Recomendadas para Zazen, de Mestre Dogen (Fukanzazengui).     
 . O Significado da Prática e da Iluminação (Shushogui), uma compilação moderna de passagens escolhidas de uma coleção de 95 textos (Shobogenzo).                                                                     

 Apesar do primeiro capítulo ter sido escrito em chinês, ambos são recitados em japonês clássico. Sua função na liturgia Soto Zen é prestar respeito ao Mestre Dogen, o fundador da escola Soto Zen no Japão, e apresentar um sumário condensado de seus ensinamentos mais importantes. Atualmente traduções em nossa língua estão sendo produzidas para melhor entendimento.

4. Eko são versos ou dedicatórias para transferir os méritos alcançados, escritos em chinês clássico, são normalmente recitados em sua tradução japonesa.    
 . Versos das 10 Frases da Eterna Compaixão (Jukku Kannon Gyô).   
. Versos sobre a Fé na Mente (Hsin Hsin Ming).     

 Esses versos sempre possuem duas partes. A primeira explica como o mérito foi gerado (nomeando os textos que foram recitados para este propósito), para quem ele será transferido e os propósitos específicos para os quais ele é dedicado. A segunda parte é uma oração solicitando uma benevolência em razão do mérito produzido. Atualmente traduções em nossa língua estão sendo produzidas para melhor entendimento.

5. Os Versos são poemas curtos, compostos em chinês clássico, que expressam os ideais e valores Budistas.                                                                                                                               
Alguns, como os Versos das Refeições Formais, os Versos do Banho e o Verso do ato de Lavar o Rosto, são utilizados no contexto do treinamento monástico Zen, para santificar e dar significado religioso a atividades que, de outra forma, seriam consideradas mundanas.                                                        
São sempre recitados quando e onde a atividade em questão é realizada, seja por um grupo (como no caso das refeições), seja por indivíduos (como ao entrar no banheiro).                                                               
 Outros versos, como.                               
. Os Três Refúgios.                    
. Os Quatro Votos.                                                              
. O Verso do Arrependimento.                   
. O Verso de Homenagem às Relíquias de Buda.                        

 São recitados como atos de fé e compromisso em si mesmos, normalmente cantados por grupos em conjunto com os Sutras e outros serviços religiosos, mas em essência sua recitação é um ato de devoção pessoal.              
Os versos derivam quase todos da tradição budista indiana e chinesa em seu aspecto mais amplo. Nestes versos, a maioria das palavras é recitada na ordem clássica da versão chinesa, mas alguns deles (como o Verso das Cinco Contemplações, recitado nas refeições) são traduzidos e recitados em japonês. Atualmente traduções em nossa língua estão sendo produzidas para melhor entendimento.
Entre os contextos mais comuns em que os textos são recitados nos mosteiros e templos da escola Soto Zen estão os serviços diários, mensais e anuais de recitação de Sutras (fugin). Trata-se de ritos em que o mérito espiritual (kudoku) é primeiro gerado através da recitação de Sutras, Dharanis ou Tratados e então é ritualmente transferido (eko) para diversos destinatários, que são nomeados em um verso formal para transferir mérito. Os serviços de recitação de Sutras são utilizados para fazer oferendas de mérito para uma ampla série de seres.                                                                                                                                                   
 . Budha Sakyamuni e seus discípulos mais próximos.             
  . Os Arhats (monges).                                                            
  . A linhagem de mestres ancestrais através de quem o Zen foi transmitido.                                                
. Os dois grandes fundadores da escola Soto Zen no Japão: Mestre Dogen e Mestre Keizan.                       
 . O abade fundador ou outros antigos abades de mosteiros específicos.                                                     
 . Várias deidades protetoras do Dharma ou de mosteiros, incluindo devas (indianos), espíritos (chineses) e kami japoneses.            
. Os ancestrais de patronos leigos dos templos.                          
. Fantasmas famintos, habitantes dos infernos, e diversos outros seres que sofrem. 

Alguns serviços de recitação de Sutras, em particular, são distinguidos pelas principais figuras para quem o mérito espiritual é transferido, mas é comum que um mesmo serviço inclua também oferendas para outras figuras menos importantes, ao mesmo tempo. Outros contextos rituais em que textos são recitados para produzir e dedicar mérito incluem.                                                                                                               . Serviços memoriais mensais (gakki) para Dogen, Keizan e o abade fundador de cada mosteiro.             
  . Serviços memoriais anuais (nenki) para eles e outros ancestrais na linhagem Soto Zen bem como para os patronos leigos.            . Funerais (sogi) para monges e praticantes leigos.                        . Várias outras recitações ocasionais (nenju) e orações (kito).

Toda a recitação de Sutras, assim como os funerais e serviços memoriais, são realizados frente a altares que contêm imagens ou tabletes (Ihai) com os nomes dos principais beneficiados pelas oferendas.                  
A recitação que produz mérito é geralmente realizada em uníssono por todos os monges (e às vezes pelos leigos) presentes em um serviço, enquanto o Eko, ou verso de transferência de mérito, é recitado por uma única pessoa, ou oficiante monástico conhecido como “cantor” (ino). A performance oral em que o mérito é gerado e transferido é muitas vezes acompanhada por oferendas físicas no altar, como queimar incenso ou oferecer comidas e bebidas.
Os serviços de orações e recitações são um tanto diferentes, no sentido em que o mérito produzido não é dedicado a indivíduos, mas sim em prol de benefícios específicos, como a recuperação de doenças, a harmonia na comunidade ou o sucesso de um retiro monástico. Como não há nenhum indivíduo nomeado nas oferendas, estes serviços não precisam ser realizados frente a um altar, mas podem ser efetuados em outros locais, como uma enfermaria ou uma sala de meditação.
Resumindo; as três funções rituais mais importantes da liturgia da escola Soto Zen são.                               
. Produzir e dedicar mérito.           
. Honrar os professores ancestrais.                                         
. Santificar as atividades de rotina nas vidas diárias dos praticantes Zen. 

Entretanto, independente de como eles são utilizados em um contexto ritual, a maioria dos textos que são recitados nos serviços e práticas da escola Soto Zen também podem ser lidos apenas por seu significado, como obras de filosofia, ética e/ou como literatura religiosa de inspiração. Longe de serem exclusivas, as várias funções destas escrituras se suportam e se enriquecem umas às outras.

Adaptado de texto da Soto Zen Project.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

"Monja Coen: A mulher nos Jardins de Buda".


A trajetória que a religiosa seguiu pretende mostrar que é possível corrigir hábitos e promover uma mudança radical. Primeira mulher a ocupar a presidência da Federação das Seitas Budistas no Brasil, ela percorreu caminhos muitas vezes inexplorados e foi capaz de realizar profundas transformações em sua vida.
Inspirada na trajetória dessa pioneira, a terapeuta e escritora Neusa C. Steiner conta, no romance biográfico, a história de uma mulher forte, decidida a seguir seu caminho e a não se assustar diante das vozes do tempo, superando as posições frágeis e submissas.
Durante quase um ano de entrevistas, Neusa percorreu os 60 anos de vida de Monja Coen. Entusiasmada, a autora mergulhou nessa história de desafios e superação e, embasada em sua experiência como psicoterapeuta, criou personagens capazes de ganhar vida própria e catalisar emoções abrangentes.
Divulgação
Livro de monja explica os fundamentos do zen-budismo

"Monja Coen: A mulher nos Jardins de Buda" é voltado a todas as mulheres que enfrentam dificuldades, muitas vezes pelo simples fato de terem nascido mulheres. Traz uma história forte, cheia de nuances, com alguns esclarecimentos sobre o Zen Budismo e um retrato histórico e social de várias épocas a partir de 1950.
Baseado na vida da monja, o romance é dividido em três partes. As duas primeiras abrangem sua infância, ressaltando a figura ímpar de sua mãe --uma mulher de temperamento forte e à frente de sua época--, a adolescência e a juventude agitadas pela maternidade e por um casamento precoce, a mudança para os Estados Unidos e o segundo casamento, e a vida atribulada em razão da busca de algo ou alguém que lhe trouxesse resposta ou alívio.
A terceira parte da obra foca sua vida monástica, incluindo os oito anos que passou num mosteiro feminino do Japão, a experiência de viver aos pés do Monte Fuji, o casamento com um monje budista e o retorno ao Brasil, onde obteve lugar de destaque como mulher e budista engajada numa cultura de paz.
*
"Monja Coen: A mulher nos Jardins de Buda"
Autor: Neusa C. Steiner
Editora: Mescla Editorial
Páginas: 264
Quanto: R$ 43,99
VISITA DE SUA SANTIDADE O DALAI LAMA AO BRASIL EM SUA QUARTA VISITA.

O que o Sr. sentiu ao ser reconhecido como o Dalai Lama? O que achou que tinha acontecido com o Sr.?
Sua Santidade o XIV Dalai Lama - Fiquei imensamente feliz. Gostei muito. Mesmo antes de ser reconhecido, dizia à minha mãe que um dia eu iria à Lhasa.  Eu ficava “montando” o parapeito de uma janela imaginando que era um cavalo e que eu estava cavalgando rumo à Lhasa. Eu era bem pequeno nessa época, mas me lembro muito bem disto. Tinha muita vontade de conhecer a capital.
Outra coisa que não mencionei em minha autobiografia é que, logo após o meu nascimento, um casal de corvos fez um ninho no telhado de casa. Todas as manhãs, eles chegavam, permaneciam por um tempo e iam embora. Foi um fato significativo e eventos similares aconteceram no nascimento do I, VII, VIII e XII Dalai Lama. Após o nascimento deles, um casal de corvos vinha e ficava por um tempo. No meu caso, no início, ninguém deu importância ao fato. Recentemente, há uns três anos, estava conversando com minha mãe e ela lembrou deste episódio. Ela observou que os corvos chegavam na parte da manhã e iam embora após um tempo. O mesmo acontecia na manhã seguinte e assim por diante.
Na noite após o nascimento do I Dalai Lama, ladrões entraram na casa da família. Os pais da criança fugiram e a deixaram para trás. No dia seguinte, voltaram ansiosos para saber o que tinha ocorrido com o filho e o encontram num canto da casa e ao lado havia um corvo vigiando e protegendo a criança. Mais tarde, quando o I Dalai Lama cresceu e desenvolveu sua prática espiritual, durante uma meditação ele teve contato direto com uma divindade protetora, Mahakala, que lhe disse: “Alguém como você, que defende os ensinamentos budistas, precisa de um protetor como eu. No dia do seu nascimento, eu o ajudei”. Como podemos ver, é óbvio que existe uma ligação entre o Mahakala, os corvos e o nascimento dos Dalai Lamas.
Outra coisa que aconteceu e que minha mãe se lembra muito bem é que logo após eu ter chegado à Lhasa, eu disse que meus dentes estavam guardados numa caixa no Palácio de Norbulinka. Quando abriram a caixa, encontraram um par de dentaduras que havia pertencido ao XIII Dalai Lama. Apontei para a caixa e disse que meus dentes estavam lá dentro, mas não me lembro deste episódio. As memórias recentes associadas a este corpo físico são mais fortes. O passado se tornou pequeno, mais vago. A menos que eu me esforçasse muito para lembrar dessas coisas do passado, mas não me recordo.

sábado, 17 de setembro de 2011

O Fio da Lâmina


Todos nós, seres humanos, acreditamos que existe algo a ser realizado, alguma coisa a ser entendida, algum mistério a ser resolvido, algum lugar aonde ir.
Essa é a dificuldade, não tem nada disso, só tem a vida para ser vivida.
Viver é muito simples.
A qualquer momento determinado do tempo estamos ouvindo, vendo, cheirando, tocando, provando, pensando.
Em outros termos, o tempo todo há inputs sensoriais dos mais diversos, ao tentar adaptar a vida a nossas idiosincrasias é que surgem os problemas.
Quando estamos mergulhados na vida há simplesmente o ver, o ouvir, o cheirar, o tocar, o pensar, o estar presente.
Quando vivemos dessa maneira, "no problems".
Somos apenas isso. 
Há vida e estamos mergulhados nela. Não estamos separados. Somos apenas o que a vida é. Ouvimos, pensamos, vemos, cheiramos, e assim por diante.
Não há o que questionar porque, quando somos a própria vida, não temos indagações a respeito, não existem dúvidas.
No entanto, não é assim que nossas vidas são e, por isso, temos tantas perguntas.
Quando não estamos vivendo nossos equívocos, nossos infernos pessoais, a vida é uma totalidade sem fronteiras, na qual estamos tão imersos que tudo é maravilhoso, tudo é tão intenso.
Mas nem sempre nos sentimos imersos porque, embora a vida seja apenas vida, quando acontece algo de que não queremos, ou quando alguém nos faz alguma coisa de que não gostamos etc., (existem milhões de coisas que podem aborrecer um ser humano) nos sentimos mal.
Todos, sem exceção, baseiam-se no fato de que, repentinamente, a vida não é mais só a vida (ver, ouvir, tocar, cheirar, pensar).
Assm fazendo, separamo-nos e rompemos a totalidade porque nos sentimos ameaçados. 
Pronto! A vida está do lado de lá e eu estou aqui, pensando sobre ela. Não estou imerso em nada mais.
O acontecimento doloroso ou irritante ocorreu do lado de lá e quero pensar a respeito dele do lado de cá, para conseguir criar uma forma de escapar ao sofrimento que estou sentindo.
Dividimos a vida em dois lados: o lado de cá e o lado de lá.
É mais ou menos como “ser expulso do Jardim do Éden”.
O Jardim do Éden é uma vida de simplicidade intacta, é estar dentro da vida.
Todos nós deparamos com essa vida de vez em quando.
As vezes, depois de uma sessão de zazen, depois de um sesshin, depois de assistirmos um bom filme, de estarmos com bons amigos tomando um vinho, essa simplicidade é muito óbvia e, por um certo tempo, sabemos que a vida não é uma maravilha.
Mas, na maior parte do tempo, temos a ilusão de que a vida do lado de lá está nos oferecendo um problema do lado de cá.
Qualquer alteração daquilo que vc considera ser o certo, qualquer quebra do equilíbrio e, já era...
A unidade sem fronteiras é rompida (ou assim parece).
Imediamente pensamos, como é que eu resolvo isso para me sentir melhor?
Parece que estamos rodeados por pessoas e acontecimentos que precisamos controlar e acertar, por nos sentirmos separados.
Quando começamos a analisar a vida, a nos preocupar e nos atormentar com ela, inventamos as mais variadas soluções artificiais, quando o cerne da questão é que, desde o mais remoto princípio, não há nada que necessite ser resolvido.
Não conseguimos enxergar essa unidade perfeita porque nossa distância da vida a oculta de nós.
Nossas vidas são perfeitas, mas ninguém acredita nisso!
Assim, existe a vida na qual estamos verdadeiramente imersos (uma vez que tudo que somos é pensar, ver ouvir, cheirar, tocar) e à qual acrescentamos pensamentos, referentes a nós, do tipo “mas isso não me convém”, "Não gosto dessa maneira".
É fácil perceber o quanto uma pessoa está fora de sintonia com a vida. Essa pessoa detesta tudo, tem sempre alguma coisa que a aborrece. Barulhos a irritam, cheiros a irritam, ter que esperar no transito a aborrece mais ainda, gente diferente a chateia etc.
Essa pessoa perdeu a consciência de sua unidade com a vida. Passou a fazer inúmeros acréscimos ao simples ato de viver e, ao fazê-lo, começaram os problemas, as ansiedades, as tensões, a raiva, a ganância, a intolerância o preconceito etc. etc.
Quanto mais se afasta da vida, mais acréscimos faz, mas qualifica a vida em bom ou mal, em eu gosto ou eu não gosto etc.
Voltar a unir essas divisões aparentemente distintas da vida é o que o zen chama de “caminhar pelo fio da lâmina”.  
Temos sempre a ilusão de estarmos separados, ilusão que nós mesmos criamos. Quando estamos ameaçados ou quando a vida não nos convém, começamos a nos preocupar, a pensar sobre uma possível solução.
Não gostamos de estar com a vida como ela é, porque isso inclui sofrimento, o que para nós é inaceitável.
Seja uma enfermidade grave, ou uma crítica efetuada, seja sentir-se só, desapontado, desamparado, isso tudo é inaceitável para nós.
Não aceitamos esse estado de coisas, queremos consertar o problema, resolvê-lo, livrarmo-nos dele. É justamente nesse momento que devemos colocar em prática o “Caminhar sobre o fio da lâmina”
Primeiro precisamos perceber que estamos com raiva, depressivos ou qualquer outro estado alterado de consciência.
Muitas pessoas sequer percebem que é isso que está acontecendo.
Assim, o primeiro passo é tomar consciência de que existe a sensação de aborrecimento de raiva etc. O zazen é prioritário para essa percepção.
Esse é o primeiro passo, mas ainda não é o fio da lâmina, ainda estamos separados, mas agora já sabemos disso.
Integrar os aspectos separados de nossas vidas é andar sobre o fio da lâmina.
Precisamos ser o que basicamente nós somos, ou seja, ver, tocar, ouvir, cheirar; temos de experimentar tudo que nossa vida é neste segundo, nesse exato momento. 
Se estamos tomando um café, temos que ser o experimentar o café. Se estamos aborrecidos, temos de vivenciar esse aborrecimento. Se estamos com medo, vivenciar o estar com medo. Esse vivenciar é físico; não tem nada que ver com os pensamentos que giram na cabeça a respeito de estarmos aborrecidos.
Quando estamos numa experiência não-verbal, estamos andando no fio da lâmina: somos o momento presente. Ao andarmos pelo fio da lâmina, os estados agonizantes da separação são integrados e vivenciamos a vida.
Compreender o fio da lâmina é o que constitui a prática zen.
A razão, pela qual é difícil, é que não queremos nos unir com a vida, queremos interpretá-la a nosso bem prazer.
Com o zazen percebemos isso.
Então nasce uma pequena vontade de ser completo, de ser feliz, de ser alegre.
Com a continuidade da prática, vamos aumentando a percepção da separação e, a vontade de ser completo vai aumentando, se intensificando.
Se alguma coisa está dando errado (nada está errado, mas achamos que está), se alguém me mágoa, se estou com raiva. Quero ficar mergulhado em meus pensamentos a respeito dessa mágoa, dessa raiva.
Assim fazendo, só aumentamos a separação.
Quando me permito consumir por esses pensamentos todos cheios de razões. Nunca estamos errados, os outros sim...
Quanto mais sofisticada se torna a minha prática de zazen, mais rápido eu vejo essa armadilha e mais rápido retorno à experiência da dor, ao fio da lâmina.
Se antes eu ficava aborrecido com alguma coisa por muito tempo, (meu pai ficou brigado com a irmã dele por mais de 20 anos e faleceram sem fazer as pazes, pois cada um achava que estava certo e o outro errado). Com a prática do zazen, esse tempo vai diminuindo lentamente, até cessar por completo.
Se antes qualquer aborrecimento irritava por meses, vai diminuindo para semanas, depois dias, depois minutos. Até que percebemos que as coisas são o que são:
Chove, faz frio, venta, os juros do cartão são altíssimos, o carro quebra e custa caro consertar, para poder ter o dinheiro para consertar o carro, tem que se entrar em “modo de economia de guerra”, estamos envelhecendo, ficamos doentes etc. etc.
Não há nada de errado com nada disso, assim é a vida – perfeita e maravilhosa.
Errada é nossa percepção dela, errado é querer que a vida se molde ao que entendemos ser o certo e o errado.
Vamos combinar, que a vida está se lixando para o que nos achamos.
Ela é o que é...
É bonita, é bonita e, é bonita.

Adaptação livre do texto de Charlotte Joko Beck

Monge Taigen.