Saudações:
Em homenagem e reverência profunda à minha Mestra de Ordenação e Treinamento, Venerável Shingetsu Coen Osho.
Que seu Corpo-Dharma, seja como um diamante inquebrantável.
Que tenha próspera longevidade e saúde ilimitada.
Que nenhum mal a atinja.
Que todos os seus esforços sejam recompensados.
Que seu Corpo-Dharma, seja como um diamante inquebrantável.
Que tenha próspera longevidade e saúde ilimitada.
Que nenhum mal a atinja.
Que todos os seus esforços sejam recompensados.
domingo, 11 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Daishûgyôi - A Grande Prática do Caminho
Capítulo 34 do Shôbôgenzô.
Hyakujo pediu então a um monge que desse um toque e chamasse os monges para lhes informar que depois do almoço uma cerimônia fúnebre seria realizada para um monge falecido.
Os monges comentaram entre si, curiosos: "Todos nós aqui estamos em perfeita saúde e não há ninguém na enfermaria. Porque haveria então uma cerimônia fúnebre?" Depois do almoço Hyakujo levou a assembleia de monges a um canto escondido atrás da montanha e ali apontou para o corpo de uma raposa morta. Então a cerimônia foi feita e a raposa cremada.
Naquela noite Hyakujo subiu ao púlpito na sala do Dharma e procurou explicar os acontecimentos do dia. Então Obaku indagou, "O velho deu uma resposta errada a seu discípulo quando era um mestre e nasceu como uma raposa durante os quinhentos anos subsequentes. O que teria acontecido se houvesse dado uma resposta correta?" Hyakujo disse, "Aproxime-se e eu lhe direi." Obaku se achegou e deu uma bofetada no rosto de Hyakujo. Hyakujo sorriu e aplaudiu, dizendo, "Cria eu que estrangeiros eram aqueles com barba vermelha, mas agora vejo que aqueles que tem barba vermelha são os estrangeiros."
Esta história, este kôan, é conhecido como "A Grande Prática do Caminho." Como ele disse, havia um Monte Hyakujo no tempo do Buddha Kashyapa. Esta palavra é a mais importante do texto, e realiza sozinha a Grande Prática do Caminho. Mesmo assim o Monte Hyakujo no tempo de Kashyapa e o Monte Hyakujo no tempo de Shakyamuni no presente não são os mesmos, e também diferentes não são totalmente. Não podemos afirmar peremptoriamente que um venha antes e ou outro esteja situado num tempo seguinte. O Monte Hyakujo como ele existe presentemente difere do Monte Hyakujo no tempo de Kashyapa; porém, neste kôan acima podemos constatar esta afirmação, "Uma vez vivia eu nesta montanha." A relação entre o velho e Hyakujo é aplicável a todo praticante que procura pelo Caminho. A pergunta do velho é a pergunta de todo praticante. Se a pessoa for preguiçosa ou mole neste ponto, com facilidade poderá cair na dualidade.
Todos aqueles que já praticaram, bem como aqueles que alcançaram a Grande Prática do Caminho, buscaram alguma vez esclarecer como somos influenciados pelo karma. Não existe uma resposta simples e elementar para tal. Durante o período de Eike em Gokan quando o Dharma buddhista entrou pela primeira vez na China e mesmo depois da época de Bodhidharma a pergunta da raposa sobre o karma raramente podia ser ouvida. Se chegarmos à Grande Prática do Caminho, veremos que isto mesmo é o Grande karma. Eis porque não podemos nem afirmar que "Não, o Dharma do karma cessa com a Grande Prática do Caminho," nem "Sim, este Dharma nunca cessa mesmo com a Grande Prática do Caminho." Se erradamente respondermos "Não," também interpretaremos mal o "Sim." Mesmo que estejamos compreendendo estas coisas como maneiras de falar, mesmo assim podemos cair ou sermos liberados da transmigração. Por exemplo, isto pode ser uma forma de se expressar no tempo de Kashyapa, mas não no tempo de Shakyamuni.
O velho disse, "Durante quinhentos anos tenho transmigrado como uma raposa selvagem." Antes que o velho fosse um mestre no Monte Hyakujo havia uma raposa mas ela não transmigrou novamente como raposa. Nenhum mestre do Monte Hyakujo deveria transmigrar como raposa selvagem. Somente aqueles que não têm fé poderiam achar que o espírito de um mestre do passado poderia deixar seu corpo e entrar no de uma raposa selvagem. E nem o espírito da raposa absorveu o Mestre. Quando se diz que o primeiro mestre do Monte Hyakujo transmigrou como uma raposa selvagem, isto quer dizer que ele deve ter esquecido sua verdadeira posição. Um mestre do Monte Hyakujo não pode transmigrar como uma raposa. Como isto se aplica então ao karma? Basicamente o Dharma do karma não tem existência concreta, mas mesmo assim está sempre sendo verificada na vida quotidiana. Afeta a todos sem levar em conta suas intenções ao agirem.
Mesmo assim se nos enganarmos e respondermos "Não!" não quer dizer que ficaremos transmigrando como uma raposa. Se isto fosse de fato o que ocorresse, certamente que muitos mestres tais como Rinzai, Tokusan e outros mais que deram respostas erradas estariam ora a transmigrar infindavelmente como raposas. Ousaria até dizer que todos os mestres dos duzentos ou trezentos anos passados estariam agora transmigrando por aí afora como raposas. Se fosse fato que uma resposta equivocada provocasse este efeito, por certo haveríamos já ouvido falar destas almas a vagar por aí. Dentre todas as respostas cretinas e equivocadas dadas a discípulos algumas há que são de fato muitíssimos piores e infinitamente mais equivocadas que a do velho.
Muitos não buscam de uma forma sincera o Dharma buddhista. Logo, necessário se faz uma mente lúcida para se chegar a compreensão do que vem a ser este Kôan. Se nossa prática for superficial não o compreenderemos jamais. O que é mais importante ainda, é que devemos perceber que não vamos transmigrar como resultado de uma resposta errada; ou deixaremos de transmigrar devido a uma resposta correta.
O que aconteceu ao velho após sua liberação do corpo da raposa selvagem não é sequer mencionado. Contudo podemos encontrar aqui ainda algo de valor. Mas não devemos ser como aqueles tolos que nunca tendo ouvido ou sequer visto o Dharma buddhista saem por aí dizendo: "Por causa da ilusão acumulada em vidas passadas renasce-se como raposa selvagem e é este corpo resultante desta ilusão que irá ser liberado. Depois que nos liberamos deste corpo de raposa voltamos ao oceano da iluminação original." Esta é a interpretação de pessoas que nada sabem do Dharma buddhista. Acresça-se a isto que se crermos que a raposa não possui a iluminação inata, isto também não seria o Dharma buddhista. Se tivermos a grande iluminação e a grande prática do Caminho, sabemos com certeza que a raposa nunca vai embora e que a compreensão não nos livra dela. Logo, se quisermos nos livrar da raposa, decerto que jamais atingiremos este estado de iluminação. Então a raposa nada terá a ver com o Dharma buddhista, será apenas uma raposa solitária. No Budismo que se preza isto é algo que não ocorre.
O Hyakujo do dia presente falou uma palavra de ensinamento e liberou aquele Hyakujo anterior do tempo do Buddha Kashyapa de seus quinhentos anos de transmigração como raposa selvagem, isto é algo que devemos esclarecer. A palavra do Dharma que o Hyakujo que vive no presente ofereceu liberou o velho. Mas o fato é que as montanhas, rios e a grande terra têm continuamente proclamado incontáveis palavras do Dharma até o dia presente e nem com isto o velho foi liberado. Isto é o que me deixa algumas dúvidas sobre esta história. Se incontáveis palavras do Dharma dadas diariamente pelas montanhas, rios e terra foram incapazes de liberar o velho, nem o poderia o Hyakujo que vive no dia presente. O Hyakujo que viveu no passado no tempo de Kashyapa não experimentou nenhuma destas palavras e esteja transmigrando ou liberado, ainda assim não conhece nada da raposa. "Da forma que tende o brotinho, da mesma forma crescerá a árvore."
Mas o que diríamos da vida de quinhentos anos de transmigração do velho? Por que razão ficou ele transmigrando? Como era este seu mundo de transmigração? Se ele disse que "o karma cessa," porque renasceu como raposa selvagem? De onde veio o corpo da raposa debaixo das pedras?
A expressão do Hyakujo antigo, "Não, o Dharma cessa" fê-lo tombar na transmigração como raposa; "Sim, nunca cessa" o liberou disto. Mesmo assim, a transmigração e a liberação existem juntas e são os princípios de causa e efeito.
Contudo todos tem sempre afirmado que "o karma cessa" é uma negação do Dharma da causa e efeito que redundará em transmigração, neste caso como raposa selvagem. Este não é o verdadeiro princípio do karma. Mesmo que o Hyakujo antigo tivesse compreendido por alguma razão que o karma cessa, estava neste momento baseado na Grande Prática do Caminho; não devemos crer que ele tivesse se enganado. Isto não é uma negação do Dharma do karma, pois que outro velho sábio disse, "O karma nunca cessa"; o karma está sempre ativo e fazendo nossa vida se desenrolar a partir dele. Esta é uma afirmação do Dharma do karma. A Grande Prática do Caminho é o estado no qual a liberação do karma é alcançada. Esta é a liberação do velho. Contudo isto ainda não está completo: é apenas oitenta ou noventa por cento. Além disto, no tempo do Buddha Kashyapa, o primeiro Hyakujo vivia no Monte Hyakujo e também no tempo do Buddha Shakyamuni o Hyakujo do presente lá vive. Isto é o corpo do passado e do presente, o rosto de sol e de lua, a natureza original da raposa selvagem no presente.
Como poderia uma raposa selvagem se lembrar dos seus quinhentos anos de vida passados? Dizer que o podia fazer, é nos enganarmos, já que era incapaz de se lembrar sequer de sua presente existência. Ela na verdade nunca teve nenhum tipo de conhecimento extra que fosse. Além disto, se esta raposa pudesse se lembrar dos quinhentos anos passados não seria qualquer raposa, mas uma que teria já alcançado a Grande Prática do Caminho, isto é o que nos leva a compreensão deste Kôan. Se nosso conhecimento for incompleto e não ultrapassarmos com nosso corpo e sabedoria o nascimento e destruição característicos da existência, não poderemos de forma nenhuma estarmos conscientes desta vida de quinhentos anos. Assim sendo falar disto nada mais será que uma mentira vazia.
Não podemos afirmar que conhecemos a raposa selvagem sem conhecermos as coisas como o faz a raposa selvagem.. Quem mais poderia saber disto além da raposa? Saber ou não-saber contudo, não se aplica à transmigração da raposa. Se transmigração não há, então por outro lado não haverá a necessidade de se liberar de nada. Nem ocorre a transmigração nem tampouco a liberação. Nem existe um Hyakujo do tempo de Kashyapa nem sequer um no presente. Isto não é fácil de se perceber, mas se o fizermos esmagaremos todos os pontos de vista errados, e foram tantos, que surgiram durante as Dinastias Ryo, Chin, Zui, To e So.
Não foi nada razoável que o velho, que era apenas o fantasma de uma raposa selvagem, pedisse a Hyakujo que celebrasse uma cerimônia fúnebre como se ele fosse um monge falecido. Não devemos ter dúvidas a este respeito. Uma raposa morta não é um monge morto pois que uma raposa não recebeu jamais os preceitos nem compareceu aos períodos de treinamento de verão, não pode possuir o Caminho buddhista, e não corresponde a um monge. Mas por um monge morto celebraremos um serviço fúnebre quer seja ele ordenado ou não. Se leigos pedirem uma cerimônia fúnebre como se fossem monges, como o fez a raposa selvagem, então deveríamos realizar tais cerimônias. Contudo, para uma raposa é uma coisa inédita, e isto nunca foi transmitido no Dharma buddhista. Não existem precedentes para tal. Disseram que a raposa foi cremada da maneira de monges, mas pode ter havido um engano.
Devemos seguir os procedimentos preestabelecidos, em qualquer lugar que formos, seja na enfermaria, seja no local de cremação. Mesmo que o cadáver da raposa selvagem afirmasse, "Eu era o primeiro Mestre do Monte Hyakujo," como poderíamos estar certos disto? Onde estão sua prática anterior e a compreensão dos buddhas e ancestrais? Quem poderia provar que ali estivesse realmente um antigo mestre do Monte Hyakujo? Não devemos ignorar o Dharma e a disciplina dos buddhas e ancestrais superestimando a importância desta história da carochinha.
Todos os descendentes dos buddhas e ancestrais devem dar importância e devida ênfase à lei e à disciplina. Não devemos ceder a qualquer pedido que seja feito pelo caminho afora, como fez Hyakujo. É deveras difícil de se encontrar mesmo que seja uma pequena parte do Dharma buddhista. Não devemos ficar tentados por este mundo evanescente ou levados pelo turbilhão das emoções. No Japão é especialmente difícil de se deparar com o Dharma e a disciplina dos buddhas e ancestrais. Dificílimo é na verdade sequer vê-la ou ouvi-la, então devemos avaliar isto como se fosse uma rara e preciosa jóia.
Existem contudo, muitas pessoas a quem falta uma confiança forte ou devotada. É digno de dó que não tenham a menor ideia do que seja ou deixe de ser importante. Falta-lhes completamente a sabedoria acumulada de quinhentos ou mil anos.
Contudo, devemos mesmo assim nos animar e a outros para alcançarmos a Grande Prática do Caminho. Mesmo uma só reverência, ou um só momento de zazen, recebidos como a transmissão correta do Dharma dos buddhas e ancestrais, deve ser respeitado como uma grande alegria, já que revela a insondável Lei buddhista. Se não possuis tal alegria, mesmo que te depares com mil buddhas, não receberás nunca nenhum mérito ou virtude. Tais pessoas nada compreendem mas estão inutilmente pretendendo ser seguidores do Dharma buddhista. Ao falarem parecem ter grandes conhecimentos apesar de ali nada haver senão conversa fiada, não oferecem meios de se verificar aquilo que está sendo dito.
Aqueles que ao mundo não renunciaram, tais como reis, ministros, Brahma ou Indra e estas categorias de seres, podem requisitar uma cerimônia fúnebre no estilo de monges, mas isto não deveria jamais ser permitido. A resposta a este tipo de solicitação deveria ser: "Renuncies ao mundo e tendo recebido os preceitos e te tornado um grande mestre poderás então encomendar um funeral para monges." Este tipo de pessoas estão apegadas aos três mundos transientes e para os Três Tesouros não dão a menor pelota. Mesmo que com eles trouxessem mil peles de raposa selvagem, apenas aviltariam o Caminho buddhista com suas presenças. Neste caso deveriam renunciar ao mundo e receber os preceitos tão logo quanto possível.
Hyakujo subiu ao palanque e explicou a história do velho aos monges reunidos. O significado da história por si só já é bastante obscuro e mais difícil ainda é ver porque ele ainda tentou explicar uma coisa tão esquisita. Ele afirmou que o velho já havia completado quinhentos anos de transmigração e agora se encontrava liberado. Mas como foi que ele chegou a esta cifra de exatamente quinhentos anos? Ele contou em anos humanos, em anos de raposa, ou em anos do Caminho buddhista? Como poderia a raposa selvagem compreender a vida de Hyakujo? Se a raposa vê a Hyakujo, Hyakujo então é apenas o espírito da raposa. Ver a Hyakujo é enxergar os buddhas e ancestrais.
Foi por todas estas considerações acima expostas que o Mestre Zen Kobuku [Monge Hojo] compôs o seguinte poema:
Hyakujo viu uma raposa selvagemHyakujo e a raposa tiveram um encontro de espíritos; apesar daquele dito do velho disse ter sido apenas metade de uma compreensão, tinha ainda assim um pouco de Verdade e se tornou uma palavra de ensinamento. Naquele momento mesmo, a raposa selvagem, Hyakujo, o velho e o mundo inteiro, todos foram liberados de seus corpos.
E ambos tiveram um encontro de espíritos.
Por causa de seu pedido,
A raposa cremada foi como um monge falecido,
Mas a cena toda não foi tão maravilhosa como poderia ter sido.
Praticantes devem procurar sondar o fundo do coração da raposa;
Se não cortarmos a razão de porque a raposa transmigrava,
O princípio da causalidade não será nunca alcançado.
Obaku disse, "O velho deu uma resposta errada a seu discípulo e com isto ficou transmigrando como raposa selvagem durante mais de quinhentos anos. O que teria acontecido se em vez de uma resposta errada tivesse ele dado, suponhamos, uma resposta correta?" Esta pergunta em si mesma encerra a realização do Caminho dos buddhas e ancestrais. Dentre todos os discípulos de Nangaku nenhum se igualava a Obaku. Mas nem o velho nem tampouco Hyakujo disseram expressamente que a resposta do velho estava incorreta; apenas Obaku insistiu que não era correta. Por que? Para Obaku aquela resposta era um equívoco, então neste caso ele pode não ter compreendido a intenção real da palestra de Hyakujo. Parece que nesta altura dos acontecimentos Obaku ainda não dominava plenamente o Caminho dos buddhas e ancestrais. Devemos esclarecer o fato que nem o Hyakujo do tempo de Kashyapa, nem o Hyakujo posterior responderam incorretamente.
Além disto, quinhentas peles de uma raposa, de três polegadas de espessura dão um balanço de sua vida naquela montanha instruindo discípulos pela vida afora. Se apenas um só fio de cabelo tiver sido liberado então teremos diante de nós a carcassa fedorenta do Hyakujo do dia presente. Examinando isto a fundo, veremos que isto nada mais é que metade do significado da liberação. Existe uma transmigração contínua do caos para a liberação e uma relação de causa e efeito que provem de uma palavra de ensinamento. Esta é a realização da Grande Prática do Caminho.
Se Obaku estava querendo saber "O que acontecerá?" a resposta deveria ser, "Transmigração como raposa selvagem." Obaku perguntaria em seguida, "Porque isto aconteceria?" Poderíamos então replicar, "Ei! Sua raposa selvagem!" Não importa se tua resposta estiver errada ou não. O melhor mesmo seria nem deixar Obaku posar sua pergunta. Se chegar a fazê-lo, deveríamos dizer-lhe, "Achaste o que procuravas?" Ou "Já estás liberado do corpo da raposa selvagem?" Ou "Disseste aos discípulos que 'o karma cessa'?"
O "Venha cá e eu lhe direi" de Hyakujo já contem em si a resposta à indagação de Obaku. Quando Obaku achegou-se não havia nem antes nem depois. E quando Obaku deu uns tabefes no rosto de Hyakujo, isto foi a liberação da raposa selvagem.
Hyakujo sorriu, bateu palmas e disse, "Olha só que eu pensava que estrangeiros eram aqueles que tinham barbas vermelhas, mas agora sei que pessoas que tem barbas vermelhas são estrangeiros." Esta expressão quer dizer que Hyakujo não queria explicar cem por cento, apenas 80 ou 90 por cento. Mesmo isto não é tanto na realidade, já que cem por cento na verdade quer dizer 80 ou 90 por cento. Mesmo assim, podemos dizer que as ações de Hyakujo expressaram o poder de sua compreensão. E este poder certamente que não proveio do covil de uma raposa selvagem. Os pés de Obaku são mantidos colados no chão, Hyakujo não o deixa partir. Esbofeteando ou batendo palmas — cada uma destas ações é diferente de um certo modo, mas a mesma coisa de outro: "Às vezes pessoas de barba vermelha são estrangeiros e outras vezes estrangeiros tem barbas vermelhas."
Extraído do site www.dharmanet.com.br/
terça-feira, 6 de setembro de 2011
FUKANZAZENGUI
Fukanzazengi – Regras universais do zazen
(Manual de meditação de Eihei Dogen Zenji – Japão, 1200‐1253)
Agora, quando procuramos a fonte do Caminho, descobrimos que é universal e absoluta. Torna-se desnecessário distinguir entre prática e iluminação. O ensinamento supremo é livre, então por que deveríamos estudar os meios de atingi-lo? Sem dúvida, o Caminho está bem longe da delusão. Por que, então, preocupar-nos com os meios de eliminá-la?
O Caminho está completamente presente onde você está, então qual a necessidade de prática e de iluminação? Contudo, se no início houver a menor diferença entre você e o Caminho, o resultado será uma separação maior do que aquela entre o céu e a Terra.
Se surgir o menor pensamento dualista, você perderá sua mente‐Buda. Por exemplo, algumas pessoas se orgulham de sua compreensão e acreditam que estão ricamente dotadas com a sabedoria de Buda. Crêem que já alcançaram o Caminho, iluminaram sua mente e conquistaram o poder de tocar os céus. Imaginam que estão andando no reino da iluminação. Mas o fato é que quase perderam o Caminho absoluto, que está além da própria iluminação.
Ainda se vêem as marcas daquele que por seis anos sentou-se ereto1 e se ouvem os ecos do Monte Shaolin, onde por nove anos sentou-se de face para a parede aquele que transmitiu o selo da mente2. Já que esses antigos sábios eram tão diligentes, como podem os praticantes dos dias atuais deixarem de praticar zazen? Devemos parar de correr atrás de palavras e de letras e aprender a nos retirar e refletir sobre nós mesmos. Quando assim fazemos, nosso corpo e nossa mente são naturalmente transcendidos, e nossa natureza‐Buda original se manifesta. Se almejamos realizar3 a sabedoria de Buda, devemos começar a praticar imediatamente.
Para fazer zazen, é desejável um local tranquilo. Devemos ser moderados no o todo relacionamento deludido. Deixando tudo de
lado, não pensemos nem no bem, nem no mal, nem no certo, nem no errado. Assim, tendo cessado a agitação da mente, abandonamos até mesmo a ideia de nos tornar Buda. Isso é verdadeiro não só para o zazen, mas para todas as nossas ações cotidianas, sem apego ao nos sentar ou ao nos deitar.
Geralmente, colocamos um acolchoado quadrado no chão, onde vamos nos sentar, e sobre ele, uma almofada redonda. Podemos nos sentar na posição de lótus ou na de meio-lótus. Na primeira, colocamos o pé direito sobre a coxa esquerda e, em seguida, o pé esquerdo sobre a coxa direita. Na segunda, apenas colocamos o pé esquerdo sobre a coxa direita. As roupas devem ser folgadas, mas bem arrumadas. Em seguida, colocamos o dorso da mão direita sobre o pé esquerdo e o dorso da mão esquerda sobre a palma direita, com a ponta dos polegares se tocando levemente. Devemos nos sentar perfeitamente eretos, nem inclinados à direita, nem à esquerda, nem para a frente, nem para trás. As orelhas devem estar alinhadas com os ombros, e o nariz, alinhado com o umbigo. A ponta da língua deve ser colocada no palato, e os lábios e os dentes devem se encostar suavemente. Mantendo os olhos entreabertos, respiramos suavemente pelas narinas. Finalmente, tendo regulado o corpo e a mente, fazemos uma respiração profunda, movendo nosso corpo para a esquerda e para a direita, e então devemos ficar imóveis, sentados tão firmes quanto uma rocha. Existe o pensar, existe o não pensar e existe o além do pensar e do não pensar. Essa é a verdadeira base do zazen.
Zazen não é meditação passo a passo. É o portal do Darma da agradável tranquilidade, é a prática e a realização da iluminação, é tornar-se o koan4. A verdade aparece, não mais havendo delusão. Se compreendermos isso, estaremos completamente livres, como um dragão na água ou um tigre recostado na montanha. O Darma Correto surge naturalmente, e ficamos completamente livres de todo o cansaço e confusão. Ao terminarmos o zazen, devemos mover o corpo devagar e nos levantar com calma. Não devemos nos mover bruscamente.
Pela virtude do zazen, é possível transcender a diferença entre o comum e o sagrado e obter a capacidade de morrer sentado ou de pé. Além do mais, é impossível para nossa mente discriminatória compreender como os Budas e Ancestrais do Darma
comunicaram a essência do Zen a seus discípulos com o levantar de um dedo, com uma vara, jogando uma agulha ou batendo com o martelo de madeira5; ou como eles transmitiram a iluminação com o levantar de um hossu6, de um punho, de um bastão ou com um grito.
Tampouco esse assunto pode ser compreendido por meio de poderes sobrenaturais ou de uma visão dualista de prática e iluminação. Zazen é a prática além dos mundos subjetivo e objetivo, além do pensamento discriminatório. Assim, nenhuma discriminação deverá ser feita entre o inteligente e o não inteligente. Praticar o Caminho com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação. Não existe separação entre a prática e a iluminação, ou entre o zazen e a vida cotidiana.
Os Budas e Ancestrais do Darma, tanto neste país quanto na Índia e na China, todos preservaram cuidadosamente a mente‐Buda e incentivaram assiduamente o treinamento zen. Devemos, pois, nos dedicar exclusivamente e ser completamente absorvidos pela prática do zazen. Apesar da divulgação de inúmeras maneiras de compreender o budismo, devemos praticar somente o zazen. Não há motivo para abandonarmos nosso assento de meditação e fazermos viagens inúteis a outros países. Se nosso primeiro passo for errado, inevitavelmente tropeçaremos.
Já tivemos a boa fortuna de nascer com um corpo precioso, então não devemos desperdiçar nosso tempo à toa. Agora que sabemos qual é a coisa mais importante no budismo, como podemos ficar satisfeitos com o mundo transitório? Nosso corpo é como o orvalho sobre a relva, e nossa vida, como o clarão de um raio, que desaparece num instante.
Sinceros praticantes zen, não se espantem com o Verdadeiro Dragão7, nem gastem muito tempo inutilmente apalpando apenas uma pequena parte do elefante8. Dediquem seus esforços ao Caminho que leva diretamente à natureza‐Buda. Respeitem aqueles que alcançaram o conhecimento completo, que estão sem intenção de intenção. Tornem-se um com a sabedoria dos Budas e, assim, sucessores legítimos da iluminação dos Ancestrais. Praticando dessa maneira, certamente serão capazes de compreender tudo isso. Então, a casa do tesouro naturalmente se abrirá e vocês poderão se servir à vontade.
1 Xaquiamun Buda.
2 Bodidarma.
3 Tornar real, autenticar. Não é exatamente alcançar. O significado aqui é mais próximo de perceber, de despertar, de vivenciar a sabedoria suprema e torná-la real na vida de cada praticante. Permitir que essa sabedoria se manifeste com a prática. Dogen Zenji Sama insiste em afirmar que prática é realização. Não praticamos para nos tornar Buda, mas porque somos Buda praticamos. Sem prática, porém, não há iluminação (estado Buda).
4 Algumas vezes traduzido como “pegadinha zen”, koan originalmente significa um Édito Imperial na China antiga. Atualmente, refere-se a situações históricas de perguntas e respostas de antigos e famosos mestres zen, com o objetivo de levar os praticantes à iluminação, ao despertar (satori ou mezameru, em japonês), por meio da transcendência da mente dualista. Na tradição Soto, a vida diária é considerada o koan essencial, a manifestação da verdade.
5 Alusão ao han, instrumento de maeira tocado para anunciar atividades no mosteiro.
d6 Bastão com pelos em uma das extremidades, usado nas cerimônias, simbolizando os fios de cabelo que saem do terceiro olho de Buda.
7 Referência a um monge que desenhava e colecionava imagens de dragões, mas, quando encontrou um dragão de verdade, fugiu apavorado.
8 Menção a um ensinamento de Buda segundo o qual um elefante foi apresentado a algumas pessoas om deficiência visual e pediu-se que descrevessem o que era. Cada uma delas conseguiu ter apenas ma ideia parcial do animal, conforme a parte que apalpou.
(Manual de meditação de Eihei Dogen Zenji – Japão, 1200‐1253)
Agora, quando procuramos a fonte do Caminho, descobrimos que é universal e absoluta. Torna-se desnecessário distinguir entre prática e iluminação. O ensinamento supremo é livre, então por que deveríamos estudar os meios de atingi-lo? Sem dúvida, o Caminho está bem longe da delusão. Por que, então, preocupar-nos com os meios de eliminá-la?
O Caminho está completamente presente onde você está, então qual a necessidade de prática e de iluminação? Contudo, se no início houver a menor diferença entre você e o Caminho, o resultado será uma separação maior do que aquela entre o céu e a Terra.
Se surgir o menor pensamento dualista, você perderá sua mente‐Buda. Por exemplo, algumas pessoas se orgulham de sua compreensão e acreditam que estão ricamente dotadas com a sabedoria de Buda. Crêem que já alcançaram o Caminho, iluminaram sua mente e conquistaram o poder de tocar os céus. Imaginam que estão andando no reino da iluminação. Mas o fato é que quase perderam o Caminho absoluto, que está além da própria iluminação.
Ainda se vêem as marcas daquele que por seis anos sentou-se ereto1 e se ouvem os ecos do Monte Shaolin, onde por nove anos sentou-se de face para a parede aquele que transmitiu o selo da mente2. Já que esses antigos sábios eram tão diligentes, como podem os praticantes dos dias atuais deixarem de praticar zazen? Devemos parar de correr atrás de palavras e de letras e aprender a nos retirar e refletir sobre nós mesmos. Quando assim fazemos, nosso corpo e nossa mente são naturalmente transcendidos, e nossa natureza‐Buda original se manifesta. Se almejamos realizar3 a sabedoria de Buda, devemos começar a praticar imediatamente.
Para fazer zazen, é desejável um local tranquilo. Devemos ser moderados no o todo relacionamento deludido. Deixando tudo de
lado, não pensemos nem no bem, nem no mal, nem no certo, nem no errado. Assim, tendo cessado a agitação da mente, abandonamos até mesmo a ideia de nos tornar Buda. Isso é verdadeiro não só para o zazen, mas para todas as nossas ações cotidianas, sem apego ao nos sentar ou ao nos deitar.
Geralmente, colocamos um acolchoado quadrado no chão, onde vamos nos sentar, e sobre ele, uma almofada redonda. Podemos nos sentar na posição de lótus ou na de meio-lótus. Na primeira, colocamos o pé direito sobre a coxa esquerda e, em seguida, o pé esquerdo sobre a coxa direita. Na segunda, apenas colocamos o pé esquerdo sobre a coxa direita. As roupas devem ser folgadas, mas bem arrumadas. Em seguida, colocamos o dorso da mão direita sobre o pé esquerdo e o dorso da mão esquerda sobre a palma direita, com a ponta dos polegares se tocando levemente. Devemos nos sentar perfeitamente eretos, nem inclinados à direita, nem à esquerda, nem para a frente, nem para trás. As orelhas devem estar alinhadas com os ombros, e o nariz, alinhado com o umbigo. A ponta da língua deve ser colocada no palato, e os lábios e os dentes devem se encostar suavemente. Mantendo os olhos entreabertos, respiramos suavemente pelas narinas. Finalmente, tendo regulado o corpo e a mente, fazemos uma respiração profunda, movendo nosso corpo para a esquerda e para a direita, e então devemos ficar imóveis, sentados tão firmes quanto uma rocha. Existe o pensar, existe o não pensar e existe o além do pensar e do não pensar. Essa é a verdadeira base do zazen.
Zazen não é meditação passo a passo. É o portal do Darma da agradável tranquilidade, é a prática e a realização da iluminação, é tornar-se o koan4. A verdade aparece, não mais havendo delusão. Se compreendermos isso, estaremos completamente livres, como um dragão na água ou um tigre recostado na montanha. O Darma Correto surge naturalmente, e ficamos completamente livres de todo o cansaço e confusão. Ao terminarmos o zazen, devemos mover o corpo devagar e nos levantar com calma. Não devemos nos mover bruscamente.
Pela virtude do zazen, é possível transcender a diferença entre o comum e o sagrado e obter a capacidade de morrer sentado ou de pé. Além do mais, é impossível para nossa mente discriminatória compreender como os Budas e Ancestrais do Darma
comunicaram a essência do Zen a seus discípulos com o levantar de um dedo, com uma vara, jogando uma agulha ou batendo com o martelo de madeira5; ou como eles transmitiram a iluminação com o levantar de um hossu6, de um punho, de um bastão ou com um grito.
Tampouco esse assunto pode ser compreendido por meio de poderes sobrenaturais ou de uma visão dualista de prática e iluminação. Zazen é a prática além dos mundos subjetivo e objetivo, além do pensamento discriminatório. Assim, nenhuma discriminação deverá ser feita entre o inteligente e o não inteligente. Praticar o Caminho com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação. Não existe separação entre a prática e a iluminação, ou entre o zazen e a vida cotidiana.
Os Budas e Ancestrais do Darma, tanto neste país quanto na Índia e na China, todos preservaram cuidadosamente a mente‐Buda e incentivaram assiduamente o treinamento zen. Devemos, pois, nos dedicar exclusivamente e ser completamente absorvidos pela prática do zazen. Apesar da divulgação de inúmeras maneiras de compreender o budismo, devemos praticar somente o zazen. Não há motivo para abandonarmos nosso assento de meditação e fazermos viagens inúteis a outros países. Se nosso primeiro passo for errado, inevitavelmente tropeçaremos.
Já tivemos a boa fortuna de nascer com um corpo precioso, então não devemos desperdiçar nosso tempo à toa. Agora que sabemos qual é a coisa mais importante no budismo, como podemos ficar satisfeitos com o mundo transitório? Nosso corpo é como o orvalho sobre a relva, e nossa vida, como o clarão de um raio, que desaparece num instante.
Sinceros praticantes zen, não se espantem com o Verdadeiro Dragão7, nem gastem muito tempo inutilmente apalpando apenas uma pequena parte do elefante8. Dediquem seus esforços ao Caminho que leva diretamente à natureza‐Buda. Respeitem aqueles que alcançaram o conhecimento completo, que estão sem intenção de intenção. Tornem-se um com a sabedoria dos Budas e, assim, sucessores legítimos da iluminação dos Ancestrais. Praticando dessa maneira, certamente serão capazes de compreender tudo isso. Então, a casa do tesouro naturalmente se abrirá e vocês poderão se servir à vontade.
1 Xaquiamun Buda.
2 Bodidarma.
3 Tornar real, autenticar. Não é exatamente alcançar. O significado aqui é mais próximo de perceber, de despertar, de vivenciar a sabedoria suprema e torná-la real na vida de cada praticante. Permitir que essa sabedoria se manifeste com a prática. Dogen Zenji Sama insiste em afirmar que prática é realização. Não praticamos para nos tornar Buda, mas porque somos Buda praticamos. Sem prática, porém, não há iluminação (estado Buda).
4 Algumas vezes traduzido como “pegadinha zen”, koan originalmente significa um Édito Imperial na China antiga. Atualmente, refere-se a situações históricas de perguntas e respostas de antigos e famosos mestres zen, com o objetivo de levar os praticantes à iluminação, ao despertar (satori ou mezameru, em japonês), por meio da transcendência da mente dualista. Na tradição Soto, a vida diária é considerada o koan essencial, a manifestação da verdade.
5 Alusão ao han, instrumento de maeira tocado para anunciar atividades no mosteiro.
d6 Bastão com pelos em uma das extremidades, usado nas cerimônias, simbolizando os fios de cabelo que saem do terceiro olho de Buda.
7 Referência a um monge que desenhava e colecionava imagens de dragões, mas, quando encontrou um dragão de verdade, fugiu apavorado.
8 Menção a um ensinamento de Buda segundo o qual um elefante foi apresentado a algumas pessoas om deficiência visual e pediu-se que descrevessem o que era. Cada uma delas conseguiu ter apenas ma ideia parcial do animal, conforme a parte que apalpou.
Siddharta - Hermann Hesse
Siddharta é um romance escrito por Hermann Hesse, dos
maiores escritores alemães Vencedor doPrêmio Nobel de Literatura em 1946. A primeira publicação
foi em 1922 e conta passagem da sua vida e pensamento durante a sua estadia na Índia
em 1910, inspirado na tradição de Sidharta Gautama, o Budha. O livro trata
basicamente da busca pela plenitude espiritual, e o alcance de estados em que a
mente humana se encontra absolutamente completa e plena.
Pode-se dizer que o “Sidarta” de Hesse é uma epopéia esotérica, um livro
para iniciados, um roteiro para um andarilho que, rompido com os valores em que
fora criado, põe-se na estrada do mundo atrás de uma nova vida. A geografia da
busca daquele que rompeu com a casa paterna ou com a religião em que fora
batizado, compõe-se de uma necessária passagem pelo vale das tentações (ligação
dele com a cortesã Kamala e com o comerciante Kamasvami) até que, transposto o
rio da purificação, (onde Sidarta ajuda o balseiro Vasudeva), o peregrino,
liberto das coisas carnais e materiais, alcança o cume final da redenção e da
libertação total. A pedra fundamental da doutrina budista é o domínio do desejo
(a existência é sofrimento/ ela é causada pela ignorância provocada pelo
desejo/ o sofrimento poder ser superado pela eliminação do desejo/ o desejo
pode ser eliminado pela meditação).Meditando, esperando e jejuando, sofrendo tormentos, ela chega por fim à transparência no Absoluto, dissolvendo-se no Akasa (éter). Reencontrado por fim por Govinda, o seu ex-companheiro de vida ascética, Sidarta termina os seus dias como balseiro do mesmo rio que cruzara ainda jovem.
Vamos ler umas partes do livro:
Despertar é um capítulo curto e denso, no qual Siddharta reavalia toda sua vida passada e a abandona, sentindo-se incomparavelmente só, pois não pertenceria a mais nenhum grupo, seria apenas Sidarta. Antes fora brâname, samana... agora, apenas ele mesmo “... lhe parecia que o verdadeiro pensar consistia no reconhecimento das causas e que, desse modo, o sentir se convertia em saber, o qual, em vez de dissipar-se, criaria forma concreta e irradiaria seu teor”.“Mas que desejaste aprender dos teus mestres e extrair dos seus preceitos? Que será aquilo que eles, que tanto te ensinaram, não conseguiram propiciar-te?”... “Era meu desejo conhecer o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e superá-lo. Apenas logrei iludi-lo. Consegui, sim, fugir dele e furtar-me às suas vistas. Realmente, nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais, de ser Sidarta! E de coisa alguma sei menos do que sei quanto a mim, Siddharta!”
“O fato de eu não saber nada a meu próprio respeito, o fato de Sidarta ter permanecido para mim um ser estranho, desconhecido, tem sua explicação numa única causa: tive medo de mim; fugi de mim mesmo! Procurei o Átman, procurei o Brama, sempre disposto a fraturar e a pelar o meu eu, a fim de encontrar no seu âmago ignoto o núcleo de todas as cascas. Mas, enquanto fazia isso, perdi-me a mim mesmo”.
“Olhou para o mundo a seu redor, como se o enxergasse pela primeira vez. Belo era o mundo! Era variado, era surpreendente e enigmático! Lá, o azul; acolá, o amarelo! O céu a flutuar e o rio a correr, o mato a eriçar-se e a serra também! Tudo lindo, tudo misterioso e mágico! E no centro disso tudo se achava Siddharta, a caminho de si próprio...” “Não havia mais aquela multiplicidade absurda, casual, do mundo dos fenômenos, desprezada pelos profundos pensadores brâmanes, que rejeitam a multiplicidade e esforçam-se por achar a unidade...” “... O sentido e a essência das coisas não se achavam em algum lugar atrás das coisas, senão no seu interior”.
“... “andei deveras surdo e insensível”...”Quem puser a decifrar um manuscrito, cujo significado lhe interessar, tampouco menosprezará os sinais e as letras, qualificando-os de ilusão... senão os lerá, estudá-los-á, amá-los-á, letra por letra. Eu, porém, que almejava ler o livro do mundo e o livro da minha própria existência, desprezei os sinais e as letras, em prol de um significado que lhes atribuía de antemão. Chamei de ilusão o mundo dos fenômenos. Considerei meus olhos e minha língua apenas aparentes, casuais, desprovidas de valor. Ora, isso passou. Despertei. Despertei de fato. Nasci somente hoje.” ”
domingo, 4 de setembro de 2011
"Quem morre ? "
Morre lentamente...
quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente...
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente...
quem evita uma paixão, um Amigo, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente...
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente...
quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente...
quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente...
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente...
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.
Ricardo Reyes Basoalto (Pablo Neruda) 1904-1973
Morre lentamente...
quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente...
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente...
quem evita uma paixão, um Amigo, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente...
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente...
quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente...
quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente...
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente...
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.
Ricardo Reyes Basoalto (Pablo Neruda) 1904-1973
Assinar:
Postagens (Atom)
