Saudações:

Em homenagem e reverência profunda à minha Mestra de Ordenação e Treinamento, Venerável Shingetsu Coen Osho.
Que seu Corpo-Dharma, seja como um diamante inquebrantável.
Que tenha próspera longevidade e saúde ilimitada.
Que nenhum mal a atinja.
Que todos os seus esforços sejam recompensados.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sutra do Coração - parte 6

Sutra do Coração
Parte 6


Obviamente se nada fica velho, e sim, se altera, como pode morrer? Sem fim a velhice e morte, através do conhecimento e da sabedoria (prajna), quando afinal conseguimos compreender que todas as coisas visíveis e invisíveis, todas as coisas criadas e por criar carecem de uma substancia inerente, damos fim ao ilusório pensamento de início e de fim.


Quando por fim, paramos de conceituar, de pré-conceituar, de vivermos em função de nossos desejos condicionados, de nossas vontades arraigadas.


Quando compreendermos que não existem leis escritas nem doutrinas acerca do certo e do errado, pois as únicas leis são as que governam os fenômenos impermanentes da vida.


Quando entendermos que o discernimento racional vê os extremos como separados, uma verdadeira dicotomia na qual os opostos estão em conflito.


Quando na verdade nada está separado nem em conflito.


As ilusões dessa inverdade precisam ser desmascaradas para que a espontaneidade da verdade possa se manifestar.


Os extremos de felicidade e desventura, amor e ódio, moralidade e imoralidade, ignorância e fim da ignorância, velhice e morte e fim da velhice e morte só tem significado em relação uns com os outros, e suas determinações só são válidas com respeito ao observador.


Não se conhece uma coisa independentemente da outra, separada do seu oposto. Ver o “um” em “tudo” implica a constatação dos opostos, mas exclui o julgamento, e os opostos surgem unicamente como a unidade dinâmica da mudança.


Tudo é “processo”, um ciclo de vir–a-ser, um movimento dinâmico entre os extremos opostos da lei universal. A única constante no universo é o fato dela (a constante) não ser constante.


Nada permanece o mesmo por um único dia, uma hora ou mesmo um segundo. O mesmo homem não pode entrar no mesmo rio duas vezes. A água que o banhou não é mais a mesma e o homem que foi lavado pela água também não é mais o mesmo. A noite se transforma em dia, as neves do inverno trazem as flores da primavera. A mudança é vida. Compreender esse sutra significa chegar ao Satori, significa transpor o abismo, derrubar a muralha da dualidade que existe entre nós e o mundo conceitual, porém é necessário lembrar que o verdadeiro Satori consiste em esquecer o Satori, esquecer o ontem, esquecer o amanhã. Se estiver com sede, beba água, se estiver com fome coma, é simples, apenas faça o que deve ser feito, sem considerar, sem esperar nada.  O vazio é forma a forma é vazio.



“Bodisatva devido à sabedoria completa. Coração-mente sem obstáculos. Sem obstáculos, logo, sem medo. Distante de todas delusões, isto é Nirvana”.


Segundo a doutrina budista, o universo não nasceu através de um movimento físico, ou da vontade de algum ser sobrenatural. No tempo sem início, não havia forma, mas apenas o vazio, e dentro desse vazio, uma imensa nuvem de gás e poeira em suspensão.


Ás vezes uma troca aleatória ocorria entre os átomos. A força que obrigou próton a colidir com próton, num choque suficientemente violento (big-bang) para fundi-los em átomos de elementos novos, começou com uma vibração.


Uma onda de energia criativa, na forma de luz, riscou as trevas dando início a um processo initerrupto e infinito de mudanças. Bastou certas condições estarem organizadas de uma certa maneira, que o estopim se acendeu.


No começo era somente a sutileza, depois lançou-se no caos o movimento sem objetivo das partículas subatômicas e da matéria.


Numa febre de reações atômicas, uma onda inestancável de poder gerou enorme calor, e esse calor, essa energia, essa ação dinâmica universal deu nascimento às estrelas e galáxias. No começo ou ainda antes do começo, toda matéria, toda radiação, todo o espaço concentrava-se num vazio celestial no qual a radiação e a matéria podiam coexistir.


A temperatura do universo era tão elevada que as forças nucleares e eletromagnéticas revelavam-se incapazes de soldar as partículas básicas numa estrutura nuclear e atômica. Era um pretenso e sutil estado de equilíbrio térmico onde a força dominante que mantinha unida a matéria era a gravidade.


Então a bola primordial de fogo, condensada, explodiu, carregando os abismos de energia e radiação. À medida que a bola de luz começava a expandir-se, a matéria ia se dissolvendo como sal na chuva.


Partículas elementares eram constantemente criadas e destruídas, criando e aniquilando nêutrons, prótons e elétrons na proporção da expansão do universo. Com a energia do calor intenso promovendo a expansão, a temperatura do universo caiu e a velocidade do processo criativo começou a decrescer pouco a pouco.


A quantidade de energia, com relação a quantidade de matéria também decresceu, e os nêutrons começaram a fundir-se com os prótons numa verdadeira pantomima de reações nucleares.


A radiação estava uniformemente dispersa no espaço, mas, à medida que uma quantidade maior de energia passava a ser contida na matéria, esta iniciava  passava a exercer poder de atração que faz com que a matéria se agregue.


Centenas de milhões de anos depois da explosão, o universo se tornara bem mais brilhante, iluminado por incontáveis estrelas e nebulosas. Embora se alterando sempre em forma e função, parece que o universo é o mesmo de sempre.


Entretanto, uma estrela nunca permanece a mesma, ela evolui constantemente ao longo dos ciclos mutáveis de desenvolvimento, enquanto vai processando a matéria prima da construção universal.


Todas as miríades de coisas existentes no cosmos foram adaptações, transformações, verdadeiras mutações de outras coisas. Todas as coisas começaram como tudo começa, da pureza física da “não-forma” do “não tempo”, do “não espaço”, do vazio, originando-se da percepção da vibração ou como preferem os budistas do “vir-a-ser”. Não há tempo nem espaço, somente o universo tal como é.


Nós vivemos neste universo, somos construídos com a mesma matéria prima do universo, entretanto cegos pela ilusão e ignorância, enxergamos uma vasta expansão exânime na qual a esfera dos organismos vivos mantém uma existência separada.


Desgraçadamente, o coração e a mente não se encontram sem obstáculos, por isso damos como verdadeiros os relatos que constituíam exercícios elementares de intelecto e criatividade.


Um homem sobe a encosta íngreme de uma montanha, uma pedra se desprende, o pé falseia, acontece o desequilíbrio, ele rola ribanceira abaixo. Os segundos finais de sua vida são gastos em rezar desesperadamente para que a mão divina se estenda e o salve da morte certa que o aguarda lá embaixo.


Para longe a lei da gravidade, o indivíduo quer um milagre pessoal. Apega-se insensatamente ao conceito de que é “direito” dos deuses governarem o universo pelo milagre, pela sua onipotente vontade e não pelas leis naturais.


Subconscientemente quer crer que acreditando no divino, imediatamente passa a ser diferente dos outros pobres mortais, afinal, sé é íntimo dos poderosos deuses, se encontra à margem das leis que governam a natureza.


Acredito que todos queiram ser felizes, mas ninguém está disposto a fazer qualquer espécie de sacrifício, ou perder seja lá o que for pela felicidade. Para tal necessário possuir o silêncio interior. Esse silêncio é o fundamento para a experiência religiosa mística, é treinamento para o despertar, para o Satori.


Não deixem de ler a parte 7.

Sutra do Coração - parte 7

Sutra do Coração
Parte 7


Entretanto essa prática não é das mais fáceis, manter silêncio mental pode ser muito difícil para não dizer traumatizante.

Numa corrida de maratona, em certo momento chega-se a um ponto que parece impossível prosseguir, não se consegue mais respirar, o corpo todo dói, o cansaço é descomunal, parece que não conseguiremos dar mais nenhum passo que dirá chegar até o final da corrida, isto é chamado pelos especialistas de “dead point”, é o ponto da morte, o ponto que poucos conseguem ultrapassar. Tem que haver muita força de vontade, muito sacrifício, muita determinação para consegui-lo. Depois de ultrapassado esse limite tudo fica mais fácil.

Num Sesshin (retiro de meditação intensiva) acontece à mesma coisa, o tempo todo são dores nos joelhos, nas costas, a cabeça girando com todos aqueles pensamentos desordenados. Os poucos que conseguem suportar, que conseguem manter o sagrado silêncio, que conseguem “estar” com as dores e com o cansaço, que não desejam estar em nenhum outro lugar, que conseguem abandonar corpo e mente. Os poucos escolhidos, que conseguem transcender a inércia e a apatia comportamental experimentam uma beatitude indescritível

Quando se compreende a “idéia” do Sutra, quando percebemos que a noção de certo e errado, puro e impuro, agradável e desagradável é pessoal, quando entendemos que tudo depende de nosso ponto de vista, de nossos conceitos, da distância que nos encontramos do objeto ou fato observado, do dia, da hora, de nossas necessidades momentâneas etc, temos a Sabedoria Completa, recebemos o “Shoboguenzo – O Verdadeiro Olho do Dharma”. Deste dia em diante olhamos as coisas, fatos e fenômenos como eles realmente são, não mais através das lentes sujas e opacas da ignorância e da ilusão.

O coração e a mente não possuem mais obstáculos, sejam eles conceituais, filosóficos, teológicos, morais ou emocionais. Se não possuem mais obstáculos não sabem mais o que significa o medo.

Isto é o Nirvana.

“Todos os Budhas dos três mundos devido à sabedoria completa obtém Anokutara San Myaku San Bodai. Saiba que sabedoria completa é expressão de grande divindade, expressão de grande claridade, expressão insuperável, expressão inigualável, com capacidade de remover todo o sofrimento. Isto é verdade não é mentira! Assim, invoque e expresse a sabedoria completa, invoque e repita: Gya-tei Gya-tei Ha-ra Gya-tei Hara So Gya-tei Bo-ji-sowa-ka. Sutra do Coração da Grande Sabedoria Completa”.
A perfeita compreensão do Sutra é a mais alta e perfeita sabedoria. Todos os Budhas dos três mundos i.e. todos os Budhas do passado do presente e do futuro obtiveram e obterão essa sabedoria, esse Samadhi que é o mais elevado, esse Satori que é o mais completo e duradouro (Anokutara San Myaku San Bodai – Iluminação completa e perfeita).

O Sutra demonstra claramente que através do seu entendimento pode-se exorcizar os monstros da ilusão da ignorância e do sofrimento, alcançando a paz profunda e derradeira, por isso ele é um Mantra (palavra sagrada) de grande divindade.

É expressão de grande claridade, pois pode iluminar o obscurecimento mental, clarear as trevas do fanatismo e o obscurantismo do misticismo. A “grande sabedoria” é chamada de Mantra para demonstrar a velocidade de sua eficiência quase que sobrenatural.

Esse Mantra é como uma senha que desvenda todos os segredos do mundo, como uma chave que abre todos os cadeados, como uma palavra secreta que assegura a vitória em todos os campos do conhecimento.

Esse Mantra é chamado de expressão insuperável, expressão inigualável porque não existe nada em qualquer dos níveis de existência que possa superá-la, que tenham a capacidade de remover todos os obstáculos.

Quando o Sutra diz: “Isto é verdade não é mentira”, o faz porque tem a mais absoluta certeza de não estar enganado, de que as palavras constantes do Sutra são verdadeiras, de modo que todos devem confiar totalmente nelas. Não devem, nem precisam cultivar nenhum suspeita, mas sim praticá-las diariamente.

A repetição sistemática desse Sutra assegura com eficácia comprovada que seu praticante ultrapasse a margem da ilusão e da ignorância para a da perfeição da sabedoria, para paz mental e de espírito, para o Nirvana, através do descarte de todo o sofrimento, de toda discriminação, de toda a conceituação e, de toda interpretação incorreta acerca dos fenômenos.

O Sutra deixa claro que não há necessidade de se recorrer a nenhum outro método, a nenhum outro sistema, a nenhuma outra prática, que o entendimento do Sutra é o suficiente para nos levar para a outra margem. A margem da sabedoria.

O Sutra é como a luz de uma lamparina que nos guia pela noite escura cheia de buracos e perigos.

Repita o Mantra que diz: (Gya-tei Gya-tei Ha-ra Gya-tei Hara So Gya-tei Bo-ji-sowa-ka) Vá (tendo ido) , vá (tendo ido) em segurança para a outra margem, que é a Perfeição da Sabedoria Completa. Que assim seja.

Assim termina o Sutra do Coração da Grande sabedoria Completa. E, também minhas considerações.

Com a débil esperança de que este ensaio possa aumentar o conhecimento sobre o Sutra Maka Hanya Haramita Shingyo.


Gassho
Getulio Taigen

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Os quatro estados da mente - parte 3


A mente é como um grande disquete lotado de arquivos. O que fazemos, é ficar repetindo os mesmos pensamentos todos os dias. Você é como um disco velho (daqueles antigos, arranhados de rotação 68) que fica repetindo todos os dias a mesma coisa, apenas por hábito, por condicionamento, apenas por que você está costumado.

Isso não é de todo mal, os velhos hábitos ajudam. Se uma criança está chorando e não consegue dormir, a mãe lhe dá uma chupeta, ela para de chorar e dorme.

Então, depois dela dormir, a mãe pode retirar a chupeta. Mas se ela não lhe der a chupeta, ele não dormirá, ou pelo menos demorará muito mais.

É um condicionamento, no momento em que a chupeta lhe é dada, um tipo de mecanismo é acionado em sua mente, e a criança se sente confortável e dorme tranqüila.

O mesmo acontece com você. Não se trata mais de uma simples chupeta, mas basicamente, o princípio é o mesmo.

Talvez você sinta dificuldade para dormir em um quarto diferente, em uma cama diferente, sem roupas ou com roupas diferentes das que está costumado, usar um banheiro diferente.

Na verdade não existe relação entre a maneira de dormir e o sono propriamente dito, mas para sua mente sim. Existe o condicionamento. E, com velhos hábitos você se sente melhor, você se sente confortável, como se estivesse entre amigos. Os mesmos pensamentos todos os dias, a mesma rotina, você sente e acha que está tudo bem.

Afinal, é tudo tão estranho! (tudo muito novo, e ninguém gosta muito de novidade, ninguém gosta de mudar) Você investiu muito nos seus pensamentos, gastou anos acumulando “coisas” em sua mente e agora não se sente bem em jogá-las fora.

Esse é o grande problema, você é como um mendigo empurrando um carrinho de supermercado cheio de coisas inúteis.

Mas se você tiver coragem, começará a perceber (com muita satisfação) a quantidade de inutilidades que você anda guardando em sua mente e como isso põe você prisioneiro de você mesmo, começará a perceber a alegria do “espaço” e a sentir a beleza que ele contem, a grande satisfação que ele começa a lhe proporcionar.

Recapitulando, (parece até apostila de faculdade) do pensamento comum, passa-se a contemplação, depois, vem a concentração e da concentração a meditação.

Movendo-se devagar, você vai percebendo as mudanças dia a dia e quanto mais você percebe, mais compreende o quanto é ridículo continuar carregando o barco nas costas, centenas de quilômetros depois de ter atravessado o lago.

Ora, você é um ser humano e não um caramujo então para que ficar guardando pensamentos, coisas que aconteceram anos atrás.

É, o assunto é complicado mesmo.

Sempre que tratamos de coisas abstratas, fica muito difícil explicá-las à luz da razão e da lógica.

Entretanto, ficará bem mais compreensível e fácil de ser entendido com a prática, somente através da experiência da meditação (zazen) é que você conseguirá entender todo o processo associativo que formam os nossos pensamentos.

Gassho

Getulio Taigen

os quatro estados da mente - parte 2


Já a concentração é permanecer em um só ponto. Não é contemplar, não é pensar. É estar com a mente direcionada em uma única coisa, sem permitir que a mente se mova.

No pensamento comum a mente se move como um peixe fora d’água. Na contemplação, a mente louca é direcionada, dirigida. Na concentração, a mente não tem permissão para se mover.

No pensamento comum, a mente se move para onde quer. Na contemplação ela se move para um lugar determinado/direcionado.

Na concentração, ela não se move, fica estacionada em um único ponto.

Entretanto, na meditação, nenhuma forma de amarra, direcionamento ou focalização é permitida. A meditação é não-mente.

Na concentração, a mente tem licença para existir em um ponto único. Na meditação até mesmo esse ponto e retirado, ela situa-se além do pensar e do não pensar.

No pensamento comum, todas as direções estão abertas. Na contemplação, apenas uma. Na concentração apenas um ponto está aberto (sem nenhuma direção).

Na meditação nada existe, nem a mente, somente o momentum “aqui e agora”. O pensar comum é o estado da mente normal. A meditação é o outro lado da margem, a maior conquista que um homem pode almejar.

Tentemos compreender: o que está acontecendo neste momento em sua mente? Está acontecendo um processo ininterrupto de pensamentos!

Se você conseguir diminuir um pouquinho essa pantomima mental, aos poucos, lentamente chegará a não-mente. Mente significa pensamento; não mente significa, naturalmente, não pensamento.

Se através da prática assídua, seu processo de pensar, seus pensamentos estiverem se tornando mais densos, enchendo sua cabeça, dificultando sua vida, deixando você distraído, esquecido, então você estará indo à direção contrária da não-mente.

Se o processo de pensar torna-se menos denso, se é diminuído, desacelerado, se você está mais alerta, dormindo melhor, lembrando-se das coisas, você está no caminho certo, está dirigindo no caminho da não-mente.

Depende somente de você. A mente pode ser um grande auxílio. A mente é aquilo que você estiver fazendo agora. Se você estiver vivenciando a experiência deste exato momento, então você está na não-mente.

Devagar, gradativamente, através do treinamento, você vai diminuindo a quantidade de pensamentos em sua mente. Se apenas um por cento for retirado, sobram noventa e nove por cento de pensamentos.

É, como se você estivesse retirando móveis sujos, velhos, quebrados e sem serventia de sua sala revestida com piso de ouro do mais alto quilate e lustres de pedras preciosas.

Quando você inicia (com muito trabalho e determinação) a retirar a sujeira de sua sala, começa a aparecer espaço. Quanto mais lixo você retirar, mais espaço você vai ter. Quando após muito esforço conseguir tirar toda a sujeira, a sala se tornará só espaço (vazio).

O espaço não foi criado pela retirada dos móveis (leia-se pensamentos) o espaço sempre esteve aí.

Se você retira alguns pensamentos, ou usando uma linguagem mais atual, Quando você deleta alguns arquivos inúteis, o espaço é criado, descoberto, recuperado.

Se continuar removendo os pensamentos, aos poucos irá recuperando seu espaço original e acabará vendo a verdadeira face de Deus (Ou como era seu rosto antes de seus pais nascerem). Esse processo chama-se meditação.

Não deixe de ler a parte 3.

Os Quatro Estados da Mente - parte 1

Mente Comum, Contemplação, Concentração e Meditação

Contemplação significa pensamento dirigido, direcionado. O leigo pode até achar que a mente em estado de contemplação é a mesma em estado de pensamento comum, mas não é verdade. O pensar da mente comum é vago, desgovernado, não começa nem acaba em nenhum lugar.

A mente comum funciona por associações. Um pensamento levando a outro, sem qualquer comando de sua parte.

A mente comum, deste modo, de associação em associação navega livre e louca sem qualquer direção, como um navio desgovernado num oceano bravio.

Por exemplo: de repente, você vê um gato atravessando a rua, lépido como só os felinos sabem ser. No exato momento em que você estabelece contato visual com o gato, sua mente comum, começa automaticamente, a pensar a respeito de gatos. A visão do gato captura e conduz sua mente, por meio de associações relacionadas a lembranças passadas.

Quando você era criança talvez gostasse (ou não) de gatos, a partir do momento em que você estabeleceu contato com o gato, todos o fato relacionado a gatos de sua infância vem a sua mente (como se você acessasse um arquivo específico na sua memória) e, por associação você começa a lembrar-se de coisas acontecidas durante seus contatos ao longo de toda a sua vida com os gatos, nesse meio tempo o gato acaba sendo esquecido, pois sua mente comum já se encontra completamente ligada a outras lembranças que por sua vez lembram outras e assim por diante. Desta maneira o tempo passa, e de associações em associações você vai levando a vida. (acreditando piamente que está vivendo plenamente).

Se qualquer outra pessoa tivesse cruzado a rua com o mesmo gato, a associação mental seria completamente diferente, pois as experiências ao longo da vida foram diversas.

Todo mundo possui elos associativos na mente. Não existe nenhuma relação entre dois ou mais pensamentos. Trata-se apenas de associação de um pensamento a outro, e, eles conduzem a si próprios. Ou melhor, você é conduzido, levado de roldão pelos pensamentos associativos, de lá para cá como um peixe fora d’água.

Não há nesta associação nenhuma conexão lógica ou estudada, apenas e tão somente associações desgovernadas. Todo mundo tem.

Qualquer acontecimento por mais banal que possa parecer o empurra para outros pensamentos e, um pensamento leva a outro, a outro a outro e assim sucessivamente por toda a sua vida até que você interrompa essa sua existência tão fútil.

O pensamento comum transforma-se em contemplação quando não acontece através da associação, mas sim quando é dirigido. É quando você está trabalhando em um sério problema e isola todas as associações. Você passa a tratar apenas desse problema em particular.

A mente, sempre nervosa e agitada, tentará escapar dessa prisão, para algum tipo de associação. Você não deixa, corta todas as amarras, todos os atalhos, permite somente que sua mente ande numa única direção.

Um cientista, trabalhando em um complexo problema, está em contemplação. Um pintor, desenhando um quadro, está em contemplação. Um universitário estudando química está em contemplação. Neste momento, o mundo todo é suprimido e apenas o cientista e seu trabalho, o pintor e a pintura, o estudante e seus livros permanecem.

No decorrer do processo contemplativo, muitas coisas paralelas o atrairão. Não permita que sua mente se distraia ou se desvie. Só permita que ela se mova em uma direção, em uma linha única. Isto é contemplação.

Qualquer pensamento lógico é contemplativo. O pensamento comum é louco, solto, absurdo. A contemplação é lógica, racional.

Não deixe de ler a parte 2.

sábado, 1 de outubro de 2011

Os quatro "G"s - Giri, Gisei, Gamam e Ganbaru.


Getulio Taigen

O Bushido e o Zen, influenciaram todos os aspectos da vida japonesa, suas crenças filosóficas e espirituais, sua etiqueta, sua vida familiar, sua maneira de vestir, de pensar, seu trabalho, seu senso de estética e sua forma de se divertir.
Essa influência se deve a 4 princípios derivados dessas artes, chamados de os Quatro G (s).

1- Giri: Significa obrigação, dever.
Esse princípio liga as pessoas a tipos e graus específicos de obrigações com seus professores, mentores e superiores hierárquicos. Giri trás um profundo senso de honra e orgulho e, aqueles que seguem o Giri (professores, mentores e superiores), sacrificam sua vida pessoal a serviço aos seus subordinados.
Se alguém faz qualquer coisa para você, começa a carregando uma obrigação ou como se diz no Japão (On). Um ON (dever ou obrigação) pode ser bom ou mal. Pode ser uma coisa grande ou ate mesmo insignificante, como um amigo que trás para vc um presente de uma viagem.
Como não deixar de cumprir com todas as suas obrigações decorrentes da quantidade de On acumulado? Talvez o amigo que lhe tenha presenteado, nem se lembre mais do ato, então pq se preocupar com isso? Pq isso o transforma num ser especial, faz com que você transceda os valores mundanos de ganho e perda.
Assim se comportando, você passa a ser alguém que se pode confiar, não 99.9% do tempo, mas 100% do tempo.
O conceito de Giri demanda que todas as obrigações devem ser pagas e, os seus sentimentos pessoais nesta questão são completamente irrelevantes. Não importa que você não tenha pedido o presente, talvez nem tenha gostado, mas você acumulou On e o Giri te obriga que essa obrigação seja correspondida.
Um velho provérbio japonês diz: “A morte é mais leve que uma pena de pombo, se comparada ao Giri que é mais pesada que uma montanha”.
Giri faz com que vc cumpra as suas obrigações como superior hierarquico ou como subalterno, afinal, cada um tem deveres a serem cumpridos, em funçaõ do cargo, posição etc que ocupa.

2 - Gisei: Significa sacrifício, em favor da comunidade.
Devemos sempre levar em conta a felicidade e a tranquilidade do grupo, o ganancioso pensamento individualista, produz muito sofrimento e dor e, esta dor acabará reverberando em nós mesmo.
A meta é conseguir unificar corpo e mente a tal ponto que não exista nenhuma diferença entre pensar alguma coisa e coloca-la em prática. Esse estado mental é chamado de Mushin ou Munen e significa, "sem mente", a mente se torna vazia de conceitos de bom ou ruim, de suportável ou insuportável, de tal forma que não intefere nas ações do corpo, apenas existe o trabalho a ser feito e o esforço de chegar a perfeição em qualquer ação.
Se todos numa comunidade pensarem assim, o trabalho fica dividido de forma equanime entre todos os membros do grupo, não exarcebando um em detrimento dos outros, a comunidade cresce, o esforço é diluido entre os membros e todos podem se beneficiar do esforço coletivo.
Tendo esse conceito em mente, não esperamos que outro faça aquilo que deve ser efetuado, sem discutir, sem se preocupar se os outros estão fazendo o que lhes cabe ou não, fazemos o que nos cabe o mais rápido, melhor e com a melhor perfeição possível.

3- Gamam Kurabe: Significa até a perfeição.
Gamam kurabe é aplicado a qualquer coisa, com o objetivo de perseverar ate que a maestria seja alcançada e superada. É o pensamento de nunca deixar de se esforçar para que algo possa ser realizado da forma mais correta e perfeita possível.
É estar sempre tentando melhorar aquilo que parece não ser possível melhorar. Um ditado japones diz: "Ki ga susumanai - Meu espirito nunca esta satisfeito", querendo dizer que sempre podemos fazer melhor, sempre podemos perseverar para que o trabalho saia mais perfeito e mais bonito.
No Japão antigo os meninos com idade de 7 anos eram entregues aos professores e com eles estudavam ate a idade média de 30 anos. O treinamento mais importantes era o de nunca parar de tentar aumentar e melhorar suas habilidades e nunca se sentirem satisfeitos com o grau que houvessem alcançado.

3- Ganbaru: Significa, segurar-se, manter-se firme, continuar tentando, não desistir.
No idioma japones existem palavras, que bem explicitam esse assunto, tais como: ganbarimasu - eu não desistirei, ganbarimashou - nós não vamos desistir, ganbate imasu - continue tentando, não esmoreça.
Um ditado japones: "Não se faz uma espada acariciando um pedaço de ferro"
É comum praticantes de Zen desistirem depois de um certo tempo de prática, achando que o esforço não vale a pena, que o caminho é muito íngreme, que os resultados são muito pequenos etc. mas o valor do sucesso depende em muito de seu esforço em alcança-lo, desistir frente a qualquer dificuldade, não constrói um caráter inamovivel, inabalável.
Não se pratica o Zen para se chegar em algum lugar ou atingir algum estado mental específico, quando se pratica o Zen, já alcançamos esse estado mental.
A capacidade de manter-se firme mesmo perante as maiores dificuldades nos capacita a superar todas as dificuldades, sejam elas quais forem e, encontra paralelo na cultura ocidental, conforme se pode observar no poema de Rudyard Kipling.
" Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas, em armadilhas as verdades que disseste. E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas, e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada, tudo quanto ganhaste em toda a tua vida. E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada, resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo, a dar seja o que for que neles ainda existe. E a persistir assim quando, exausto, contudo, resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!"

Que esse texto possa ser para o benefício de todos
Gassho


Diálogo da Árvore e da Pedra



Extraído do livro Musashi, de Eiji Yoshikawa, romance épico baseado diretamente na história japonesa, que narra um período da vida do mais famoso samurai de todos os tempos. Trata-se de um diálogo, entre o monge Zen Takuan e Musashi quando ainda era um aprendiz de samurai. Esse dialógo foi travado quando o monge consegui prender Musashi numa árvore.

A noite vinha chegando. Contrastando com a anterior, a lua brilhava branca no céu sem nuvens. Quando todos no templo se aquietaram adormecidos, o monge, cansado dos livros, calçou as sandálias e saiu.

-Takezo! - chamou. Um leve frêmito agitou os ramos, no topo do velho cedro. Gotas de sereno caíram ao seu redor formando uma chuva tênue e brilhante.

- Pobrezinho, já nem tem forças para responder. Takezo, ei, Takezo! Na mesma hora, um berro possante se fez ouvir:

- Que quer, monge dos infernos? - Era a voz estrondosa de Takezo, cujo ânimo nada lograva abater.

- Ora, ora ... - disse o monge, elevando uma vez mais o olhar. Vejo que ainda não perdeu a voz. Nesse passo, creio que é capaz de durar mais cinco ou seis dias. E então? Está com fome, Takezo?

- Não me faça perder tempo com conversa fiada, bonzo. Ande logo, corte minha cabeça de um vez!

- Nada feito, não ouso cortá-la descuidadamente. Do jeito como você é atrevido, sua cabeça é capaz de pular e morder meu pescoço, mesmo depois de separada do corpo. Bem, vamos apreciar o luar.

Takuan sentou-se sobre um pedra próxima.

- Espere aí que já lhe mostro ... Concentrando toda a força do corpo, Takezo pôs-se a sacudir o galho em que se achava amarrado. Folhas e fragmentos de casca choveram sobre o rosto de Takuan. O monge os removeu, limpou os ombros e o peito, e voltou uma vez mais o rosto para o alto:

- Isso, assim é que se faz, gostei de ver! É preciso sentir raiva, muita raiva para que realmente venham à tona a verdadeira força e o caráter de uma pessoa. Nestes últimos tempos, anda na moda rotular de intelectual e magnânimo o indivíduo imperturbável, que oculta sua raiva. Que jovens se ponham a imitar tal atitude, supostamente adulta, constitui indizível absurdo. Gente jovem não deve conter a raiva. Tem de expô-la! Vamos, ranja os dentes, sinta raiva, muita raiva, Takezo!

- Ah, não perde por esperar, bonzo maldito! Eu ainda vou conseguir desgastar essas cordas e rompê-las, e então aterrisarei ao seu lado e o materei a pontapés!

- Palavras promissoras! Sinto-me orgulhoso! Até que isso aconteça, aqui permanecerei, à espera. Contudo, pense bem: até quando será capaz de agüentar? Sua vida não se terá acabado muito antes de a corda arrebentar?

- Como é?

- Céus, que força impressionante! Você está conseguindo balançar até a árvore! Mas veja a terra: nem se abala, reparou? Sabe por quê? Porque não há força em seu ódio - seu ódio é pequeno, é privado, tem origem em rancores pessoais. A indignação de um homem deve ser desprovida de interesses pessoais, devotada à causa pública. Encolerizar-se levado por mesquinhas emoções pessoais é histeria feminina.

- Continue tagarelando à vontade; já vai ver o que lhe acontecerá!

- Não adianta, Takezo, desista! Desse jeito, só vai conseguir consar-se. Por mais que se debata, nunca conseguirá abalar a terra - nem sequer partir esse galho.

- Maldição!

- Se empregasse toda essa energia a favor, já não diria da pátria, mas ao menos de terceiros, você conseguiria mover céus e terra, até mesmo os deuses, sem falar nos simples mortais! Nesse ponto, Takuan passou a usar o tom que empregava em seus sermões:

- É lamentável, lamentável! Nasceu de humanos, e no entanto é uma fera: e selvagem como uma fera, sem progredir um passo sequer em direção à condição humana, este jovem tão formoso está condenado a terminar seus dias.

- Cale a boca! - gritou Takezo. Lançou na direção do monge uma cusparada que se pulverizou antes de atingir o solo.

- Agora escute, Takezo, preste atenção: sua força física tornou-o bastante presunçoso, não é verdade? Acreditava não haver no mundo ninguém mais forte que você, estou certo ou não? E agora, que tem a dizer do seu atual estado?

- Você não me derrotou pela força: nada tenho de que me envergonhar.

- Não importa se fiz uso de expedientes ou de palavras, o fato é que o derrotei. Prova disso é que, por mais que se mortifique, aqui estou sentado numa pedra como vencedor e você exibe sua triste figura, dependurado num galho de árvore. Tem idéia do que provocou esta situação?

- ...

- Se considerarmos apenas a força física, você é mais forte do que eu, tem toda a razão. Um homem não pode lutar com as mãos limpas contra um tigre, é claro. Mas um tigre é sempre um tigre, um animal inferior ao homem, não se esqueça.

- ...

- O mesmo se dá com a sua coragem: todas as suas ações, até agora, demonstraram temeridade, uma falsa coragem que deriva da ignorância. Não são atos de um ser humano, nada têm a ver com a verdadeira força de um bushi. O homem, o verdadeiro bravo, teme o que tem de ser temido, poupa e resguarda a vida - esta pérola preciosa - e procura morrer por uma causa digna. Percebe agora o que há de tão lamentável em tudo isso? Você veio ao mundo possuindo força física e firmeza de caráter, mas é inculto - aprendeu apenas o lado sombrio da arte guerreira, não procurou cultivar a sabedoria e a virtude. "Aperfeiçoar-se no duplo caminho das letras e das armas" - conhece a expressão? Mas que significa "duplo caminho"? Sem dúvida não significa que dois são os caminhos a serem percorridos em busca do aperfeiçoamento; significa, isto sim, que os dois caminhos, das letras e das armas, estão juntos e perfazem um único caminho. Compreendeu, Takezo? Calou-se a voz sobre a pedra, nada mais disse o vulto sob a árvore. A noite permaneceu negra e serena. Por instantes, reinou o silêncio.

Eiji Yoshikawa